Postagens

Mostrando postagens de novembro, 2018

Antítese do vazio.

O silêncio rumina minha alma feito a paciência que consome o tédio. Lá fora, as pessoas se silenciaram e vestiram máscaras para encobrir seus verdadeiros sentimentos e opiniões, expondo então um fragmento do discurso alheio e geral. Aqui dentro eu me permito ser sincero comigo mesmo, mas não sei o quanto é sinceridade e o quanto é revolta, vontade de participar do mundo e se decepcionar, e então pensar o total oposto apenas por vingança. A decepção deteriora meu ânimo feito chuva invadindo a janela esquecida aberta. Onde antes havia conforto, agora a vida chora uma ode para o tédio, resumindo-se ao nada e ao vazio que o representa. Onde agora há tédio, antes havia motivação e sentimentos e vontade de mudar o mundo, mas o mundo me mudou primeiro e agora eu estou à beira da estrada, esperando uma carona pra me levar de volta pro lugar em que outrora eu estivera, pois viver no vazio é o mesmo que não viver ao todo. O vazio preenche todas as coisas e cores e torna o sono numa constant...

Paralaxe da estética.

As pessoas são como flores do mal, sempre a machucar as pessoas ao seu redor e promover doses e mais doses de maldade mundo afora. A questão é que isso não é de sua natureza, mas sim do mundo em que vivem e lhes ensina tais comportamentos - somos herdeiros de infinitas maldades colhidas, plantadas e então semeadas de volta. Tudo o que vemos é uma cópia de uma cópia de uma cópia, e assim por diante. Não há nada de novo atualmente, apenas repetições de coisas que um dia fizeram, e então uma pessoa viu e refez, e depois outra, dando início a uma série de inocentes maldades. Somos meros espelhos, refletindo o que nos parece coerente, embora essas coisas nem sempre sejam realmente adequadas. As pessoas são como túmulos lacrados, sempre a guardar um segredo obscuro das pessoas ao seu redor, por vergonha de um deslize cometido. A questão é que isso não é intencional, mas obra de impulsos mal controlados e maldades feitas sem intenção. O segredo se dá pela compreensão disso e compreende uma...

Anatomia da dependência.

Toda viagem reserva perigos e, sendo a maior de todas as jornadas, a vida não poderia ser diferente: ela é traiçoeira em seus detalhes e ausências, assim como na necessidade e fé. A princípio, é preciso lembrar que a fé se define por uma crença livre de provas, sustentando-se por conta própria e de forma constante. Assim, logo podemos ver o quanto a vida requer empenhos livres de prova e que comumente não são recompensados devidamente - ausências constantes e necessidades que continuam pendentes. Repetimos as coisas que não funcionam e que, portanto, continuam se fazendo ausentes; necessidades que continuam em pauta na nossa lista imaginária de prioridades - se estas tivessem sido sanadas, afinal, pararíamos de tentar cobrir o vazio que sua ausência proporciona. Assim, repetimos falhas e buscamos medidas constantemente para tentar refrear esse buraco na alma; caso contrário, a alma se deteriora aos poucos e nos infiltramos na loucura para não nos depararmos com a incompletude do nos...

Caricatura do desastre.

Pessoas são rascunhos de uma vida inteira de possibilidades e, não importa o que aconteça, continuam estando condenados a repetir apenas aquilo que lhes foi imposto, proposto e disposto. Enquanto a disponibilidade é uma sentença inicial para o crime de existir, a liberdade é o que resulta de cada revisão dessa vida vivida: Por ter escolhido X durante sua sentença, aumentaremos ela para a disponibilidade de Y nas mesmas ocasiões! Agora vá, seja livre! Ser livre não é tão favorável quanto fazem parecer, pois envolve responsabilidade. O peso que se carrega por cada decisão e erro. Aquele que se prende a alguma coisa, ao menos possuirá um álibi para seus comportamentos inadequados. As correntes são um alívio quando se percebe a cobrança que o mundo faz a quem controla os títeres. E, não importa o que aconteça, vai haver sempre mais cobrança e insatisfação, nunca reconhecimento. A vida não se trata sobre sucesso, mas perdas, lutos, frustrações afins. Talvez interpretem semblantes cansa...

Infinitivo da ausência.

A vida é uma produção constante de nostalgia. Para aquele que vive, não há meio termo: ou você se sente feliz e aproveita sua vida ao máximo, criando momentos para se recordar posteriormente com uma saudade gostosa de se sentir; ou você se sente vazio por dentro e resume sua existência ao tédio, ansiando por tempos que passaram e você sequer percebeu o quanto era bons ou, pior ainda, sente saudade de coisas que sequer aconteceram. De toda forma, a vida se resume à ausência e produção constante, para se ausentar novamente depois. Por isso a saudade de coisas que não aconteceram é a pior coisa possível: você exclui suas possibilidades e se ausenta em seu presente, tornando-se incapaz de viver adequadamente, produzindo os momentos que tanto ansiava. A pior saudade que tem é das coisas que nunca mais vão acontecer, porque essas doem. Em especial aquelas saudades de coisas que nunca mais teremos, mas ainda sentimos necessitar tanto - uma ausência que grita em dor. A vida consiste numa pr...

Campo gravitacional do determinismo.

A maioria das coisas que fazemos não tem sentido explícito. Não importa o quanto tentemos compreender e racionalizar e explicar, em nosso âmago há um significado todo especial ao qual nunca teremos acesso. O valor que realmente damos às coisas, o caráter que demonstramos e os sentimentos que desconhecemos, mas que nos conhecem tão bem. Temos afeição pelo desconhecido, porque tudo o que nos define nos foge à consciência. Cada lei que seguimos e prazer que buscamos. Há algo subliminar na nossa razão, um motivo profundo pelo qual necessitamos lógica quando esta não faz o menor sentido: controle do inevitável. Se o essencial é invisível aos olhos, tudo o que sentimos inevitável é de suma importância em nossas vidas. Cada movimento que pensamos ordenar é, na verdade, uma órbita forçada ao redor de um campo gravitacional que nos prende à existência. Uma existência pré-programada em funções, embora não em rota. É possível seguir uma rota própria, mas nunca fugir de nossa natureza intrínsec...

Uma flor repleta de mal-me-queres.

Sinceramente, eu não queria ser sincero, porque a sinceridade assusta. Ser verdadeiro e se expor é como se despir em campo de batalha - você nunca sabe se poderá se esquivar de um golpe em tempo caso ele venha, mas sabe que virá. Mentir é tão fácil que se torna banal viver imerso em realidades forjadas, histórias minuciosamente construídas para tecer vidas melhores e relações duradouras. Gestos vazios e cordiais são apenas as ferramentas que as mentiras empregam para criar encaixes entre mundos distintos que cada pessoa traz consigo. Não há profundidade, apenas um resquício de presença para que a ligação seja feita, apenas uma impressão de carinho que se esvai tão breve você abandona a sua própria. E tudo vira verdade outra vez. Sinceridade é algo que se conquista aos poucos, não que se tem diretamente. É árduo e é preciso merecer, como o tesouro enterrado no fundo de uma gruta. Se fosse fácil, todos seriam sinceros uns com os outros e cada gesto seria carregado de mais valor. O que...

Novas dores.

Quando todos os cordeiros tiraram suas peles, revelaram-se lobos disfarçados e não havia cordeiro restante para devorar. Assim, passaram a devorar uns aos outros. O primeiro que caísse sucumbia aos outros e saciava a foma de preservação que rugia feroz em seus estômagos. O último que caiu estava faminto, pois não havia o que comer, e notou o quão sortudos foram os que não lutaram até o fim. Quando todos os peixes choraram suas mágoas, ninguém notou porque não havia como distinguir suas lágrimas da água que sempre houvera ali. Era um lamento discreto e solitário. Todos se afogaram e o último que partiu decidiu fechar os olhos para não ver o que havia restado, mas não funcionou. Quando todos os sóis cansaram de brilhar, decidiram se pôr. Mas onde quer que fossem, seu brilho era notado e, quanto mais fugiam para a escuridão, menos a encontravam. Tudo o que havia para eles era um holofote a contragosto. Aceitando seu destino então, brilharam intensamente por um último momento e ofusca...

O existencialismo é uma escassez de excessos.

As pessoas são atraídas aos excessos da mesma forma que mariposas pelas lâmpadas, mas isso os põe em miséria. Há uma busca incessante por um pouco mais de tudo devido a uma sensação de termos um pouco menos que nada, e quanto mais conquistamos, maior se tornam as dimensões percebidas do mundo, então surge uma noção de quão pequenos somos e precisamos de mais e mais e mais - porque tudo que conseguimos se mostra pequeno em relação ao leque de possibilidades então aberto. Esse é um dos motivos de o individualismo, impulsionado ainda mais pelo capitalismo moderno, ter funcionado tão bem: ele permite excessos e pune com escassez. Se você faz em excesso, consegue em excesso e lhe é permitido ter em excesso. Se você não jogar, não tem nada e logo se vê em miséria. É uma visão que corrobora com a necessidade humana de acumular. Somos acumuladores naturais, a evolução nos fez aversivos ao pouco e ao regular. Somos problemáticos mesmo em nossos costumes usuais. Também existe uma miséria em...

Perfeitamente imperfeita.

Ela é inevitável feito o sol e quente como o verão, tão intensa quanto a dor que se representa através da poesia. Versos nada dizem em comparação à sua essência, preferem emudecer - sublime é o silêncio que se faz quando ela está presente. Se eu tivesse um pedido a ser realizado, pediria para ser feliz; mas, como não tenho, posso desejar coisas impossíveis, portanto desejo ela. Desejo a dor que se faz presente quando ela está e eu não; desejo ser o verbo a conjugar o pronome quando ela é sujeito de uma oração; desejo uma oração especialmente feita para ela; desejo todas as coisas loucas e abstratas que só existem em consequência dela. Ela própria é um impossível que se faz real. Tenho tanto tempo que o perco tentando encaixa-la em minha agenda. Todos os dias são dedicados a ela, do princípio ao fim. O próprio tempo só existe para que eu possa contar os segundos que correm enquanto ela não está aqui - como duvidar de milagres quando possuo um bem aqui? E, apesar de tudo isso, ela...

Epítome do real.

As pessoas discorrem muito sobre caráter, mas isso é uma questão de valor. Não o quanto vale o comportamento de uma pessoa para a outra, mas o quanto você valoriza cada coisa e age a partir disso. Então não é pela ação que você constrói seu caráter - essa é a sua identidade -, mas através dos comportamentos que demonstram o valor que você dá a cada coisa no mundo - seus valores para o mundo. E é assim que deveria ser. As pessoas discorrem muito sobre respeito, mas isso é uma questão de limite. Eu te respeito na medida que quero nos distanciar ou aproximar, ou seja, nos limites que imponho para a nossa relação. Quem muito exige respeito esquece que isso não altera o que pensam sobre si, apenas impõe um limite do quanto pode ser demonstrado frente a frente. O valor estabelecido para o outro continua igual e é assim que deveria ser. As pessoas discorrem muito sobre a verdade, mas isso é uma questão de perspectiva. Eu limito seu acesso às informações disponíveis toda vez que te falo a...

Não entre em pânico.

O primeiro sinal de que tudo vai mal é o silêncio. Quando você deixa de perceber o mundo, é porque seu mundo está prestes a desmoronar - e, acredite, ele vai. Ao que o universo se cala, o coração bate e nos ouvidos é possível ouvir as batidas surdas e incessantes, cada vez mais rápidas, furiosas e constantes. A seguir, o corpo entorpece e um arrepio percorre a espinha, acompanhado por um frio que em nada combina com o clima que você sentia anteriormente. Os braços frios estremecem e seus ombros se encolhem automaticamente, buscando proteção no calor que o corpo emana, embora mal saibam que este se encontra igualmente gelado. Terminado o frio na espinha, o bater das asas das borboletas do estômago provocam furacões nos territórios viscerais. O estômago parece vazio, ainda que você tenha se alimentado há pouco, e a dor aperta fazendo um nó aparecer repentinamente na garganta, assim como um desconforto te obrigar a agarrar o umbigo e tentar arranca-lo com as mãos suadas. Os braços não ...

Devaneios cotidianos.

Na falta das palavras certas, falo as erradas e torço para que algumas delas funcionem igualmente bem. Na falta de sentido, me permito um momento de insanidade, senão suspeito que enlouqueço ao tentar me encaixar em vidas que não me dizem respeito. Não me esforço para ser mais do que sou, assim como não sou o que me esforço para ser - existe um paradoxo aqui, mas isso não é importante, o que realmente importa é o quanto arrisco ao viver. Na falta de versos, sigo em prosa e arrisco estruturas que não rimam e sequer se encaixam de fato. Na falta de organização, tento fazer parecer que a bagunça sempre foi meu objetivo, porque assim sempre cumpro minha meta de ordenar coerentemente o caos. Não vejo problema em improvisar de última hora, porque às vezes é o elemento surpresa do cotidiano que te dá inspiração para as melhores coisas, as maiores loucuras e as mais saudosas histórias. Na falta de calma, arrisco a sobriedade e a razão, embebido num pessimismo que me faz buscar armadilhas ...

Sonhos superficiais.

O sabor da calma se confunde com o da felicidade, mas as duas coisas não significam realmente a mesma coisa. Sentir-se calmo é entorpecer a alma e se permitir entrar em contato com todas as coisas, enquanto a felicidade é uma perturbação mental que te obriga a viver o momento com todas as suas forças, que te obriga a se sentir bem mesmo que tudo esteja mal. Não é errado se sentir bem - longe disso, é ótimo -, mas não é a mesma coisa que estar em paz. A calma é um estado pleno que, de tão sutil, sequer se faz perceber. A felicidade, por outro lado, é viciante - mais do que qualquer substância psicoativa, ouso declarar. Só se altera psiquicamente quem quer ser feliz, e só quer ser feliz quem quer fugir de uma vida livre de felicidade. Dessa forma, fugir para o bem-estar é uma recaída constante que ninguém se preocupa em condenar. Quem quer ser feliz tem o direito - dizem -, mas quem só quer estar em paz deve ter algo de errado, pois o certo é ser feliz. Há algo de curioso nas pessoa...

Vida artificial.

O mundo se abre diante de mim e se mostra muito maior do que eu posso aguentar, então estendo meus braços e agarro tudo o que posso - termino num abraço breve e solitário. Há muito mais coisas nessa vida do que podemos suportar, e há muito mais vida na dor do que na alegria - porque a dor permanece, enquanto todo regozijo é efêmero e logo se vai para dar lugar a um pouco mais de agonia. Mas, se não fosse assim, será que saberíamos apreciar apropriadamente os bons momentos que temos? Acredito que não. Só apreciamos a felicidade porque ela é breve e sempre nos falta. Se estivesse sempre aqui, seria banal - feito o ar. Me faltam palavras pra explicar tudo o que sinto, e me falta alma pra sentir tudo o que quero. Todo o meu ser é pouco pra todas as expectativas que tenho, e todas as possibilidades que se abrem diante de mim são mais do que posso suportar ou imaginar. Não imagino novas cores da mesma forma que não posso conceber infinitas vidas inteiras, ponderando prós, contras e imparc...