Anatomia da dependência.

Toda viagem reserva perigos e, sendo a maior de todas as jornadas, a vida não poderia ser diferente: ela é traiçoeira em seus detalhes e ausências, assim como na necessidade e fé. A princípio, é preciso lembrar que a fé se define por uma crença livre de provas, sustentando-se por conta própria e de forma constante. Assim, logo podemos ver o quanto a vida requer empenhos livres de prova e que comumente não são recompensados devidamente - ausências constantes e necessidades que continuam pendentes.
Repetimos as coisas que não funcionam e que, portanto, continuam se fazendo ausentes; necessidades que continuam em pauta na nossa lista imaginária de prioridades - se estas tivessem sido sanadas, afinal, pararíamos de tentar cobrir o vazio que sua ausência proporciona. Assim, repetimos falhas e buscamos medidas constantemente para tentar refrear esse buraco na alma; caso contrário, a alma se deteriora aos poucos e nos infiltramos na loucura para não nos depararmos com a incompletude do nosso ser.
Dessa forma, tudo aquilo que nos falta e encontramos no outro, se torna por nós desejado. Não enquanto característica, mas no todo que a abarca: toda a estética construída, os sorrisos quebrados, os amores platônicos e habilidades ausentes-presentes -  como se fossem quebra-cabeças com peças em falta que se encontram e completam perfeitamente. Mas esse encontro não é tranquilo, pois envolve o reconhecimento de uma falta, assim como o consequente desespero de cobrir a nudez existencial que o vazio fornece.
Se a vida é uma viagem, o amor é a turbulência - um desconforto inicial que te faz desejar a paz. O amor é o desejo em pauta, quando a necessidade se faz presente e a busca pela completude se inicia. O incômodo só desaparece quando o que te falta é sanado e doses de calmaria se dispersam por seu corpo, preparando-o para novas turbulências. Dessa forma, tem relação direta com a necessidade e imperfeição sentida. Somos imperfeitos e, por isso, precisamos dos outros - mais que isso, precisamos sentir o afeto alheio para garantirmos que seremos cuidados. Somos viciados em dependência. Mas será que é sempre que merecemos esse tipo de relação?
Temos um bom discernimento de quem somos, ainda que estejamos errados em nossas ideias e nos princípios que usamos para julgar. Uma noção se rabisca em nossas mentes e nos indica nosso lugar no mundo, assim como o que merecemos e quanto merecemos.
É interessante pensar que sentimos necessidades e tentamos sanar ausências, mas muitas vezes avaliamos o quanto merecemos na hora de sanar - permitindo-nos chegar perto do que necessitamos ou nos afastamos como forma de punição por nãos nos acharmos tão merecedores assim de algo satisfatório e/ou bom. Nutrimos nossos vazios com base em quem nos julgamos ser, não naquilo que nos incompleta. Quando nos sentimos merecedores de um afeto ou benefício, retribuímos com gratidão; mas, quando nos sentimos merecedores de mais, retribuímos com um sentimento de inveja. Desejamos destruição aos que se completam ao invés de nós. Quando não merecemos um afeto, porém, nos colocamos em culpa e submissão. A ausência se torna num poder destrutivo, interno ou externo, quando não nos sentimos bem conosco.
Por isso, antes de aceitar a mão estendida de outrem, é preciso estender a mão para si mesmo e se compreender em todas as suas dimensões. Nas ausências e o que elas causam - inclusive a ausência de bondade ou competência, que logo transformamos em culpa. É preciso reconhecer que somos imperfeitos e nem sempre atingiremos objetivos sublimes, e é exatamente por isso que necessitamos suprir ausências - para nos tornarmos um pouco melhores. Dessa forma, é ao estabelecer contatos nutritivos com os outros que nos tornamos melhores e possibilitamos produzir menos ressentimentos sobre nós mesmos, nos tornando pessoas de quem possamos nos orgulhar. Na construção de nós mesmos, somos dependentes dos outros - e é desse processo que resulta a turbulência.
Somos seres em processo de autodestruição buscando salvar o pouco que nos resta, preenchendo buracos porque novos buracos surgem a todo instante. E, toda vez que desistimos da aceitação do outro e consequente estabelecimento de laços reais, nos permitimos morrer por dentro sem tentar salvar nem um pouco do que nos remanesce. É desistir da luta antes de chegar ao campo da batalha. Um suicídio lento e corrosivo da nossa estrutura existencial. É preciso desistir das desistências para existir de fato, pura e completamente, porque a pauta persiste e a ausência insiste. Então pegue o próximo, comece a viagem e não amarele diante da turbulência. Deixa que eu pinto o amarelo doutra cor e seguro a turbulência até que tudo se acalme. Deixa que eu desisto disso em seu lugar para que você possa seguir viagem em paz. Dexisto.

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