Crônica de um vazio imensurável.

Diante do abismo só se pode cair. Você sorri porque não há mais nada a fazer. Finge felicidade e compra as ideias de bem-viver quando tudo o que pode fazer é seguir em frente - e o abismo está logo ali. Dias melhores virão, você sabe disso e até repete para si mesmo, mas quanto tempo demorarão pra vir? Você será forte o suficiente para esperar por isso? Você espera que sim, mas a tormenta é cada vez maior e sua voz mal sai quando você tenta gritar por ajuda, então sufoca em uma dor crescente que te aperta a garganta e cala tudo ali.

Diante da solidão só se pode lamentar. Você estende a mão, mas não há nada ali em lugar algum. Nos momentos em que mais precisa, tudo o que tem são seus medos e tempo. Tempo de sobra, e principalmente para remoer tudo aquilo que não se quer lembrar. E quando se está sozinho, todos os seus temores parecem reais e novos medos nascem de possibilidades que você jamais pensou existirem antes. Você não tem nada e teme que nunca terá. Se por ventura tiver um lugar ao qual se agarrar, acabará por destruir aquilo que ama apenas porque não há mais nada contido em você além de medo - e você não sabe o que fazer com isso, então deixa escapar como pode.

E, por vezes, exprime de maneiras desajustadas.

Diante do cansaço só se pode perecer. É triste pensar que muitas vezes não se pode dar ao luxo de descansar quando não está aguentando mais, porque se você parar por um instante o mundo te deixa pra trás, a vida te deixa pra trás, todo mundo te deixa pra trás - e a culpa recairá sobre você. Você segue em frente mesmo sem aguentar porque é tudo o que pode fazer. Dói. Tenta esquecer, mas não há anestesia o suficiente quando há tanta coisa em todos os lugares ao mesmo tempo. Deixa pra lá, segue em frente e tenta mais um pouco.

E, mais uma vez, você sorri porque não há mais nada a fazer. Quando tudo e todos desistem de você, o mundo te tira o direito de desistir de qualquer coisa - exceto você mesmo. Então você se pune e se junta à multidão. Só se pode supor que Sísifo está feliz, não é mesmo? É nesse momento que, olhando pro abismo, ele te olha de volta e vocês trocam olhares. Por um breve instante, você percebe que esteve lá embaixo esse tempo todo e apenas agora se vê. Está colapsando, é isso. Pela primeira vez, você se reconhece e se pergunta se é tarde demais. Você não sabe, mas espera que não, porque talvez não tenha desistido por completo.

Dexisto.

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