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Mostrando postagens de janeiro, 2023

Crônica de um vazio imensurável.

Diante do abismo só se pode cair. Você sorri porque não há mais nada a fazer. Finge felicidade e compra as ideias de bem-viver quando tudo o que pode fazer é seguir em frente - e o abismo está logo ali. Dias melhores virão, você sabe disso e até repete para si mesmo, mas quanto tempo demorarão pra vir? Você será forte o suficiente para esperar por isso? Você espera que sim, mas a tormenta é cada vez maior e sua voz mal sai quando você tenta gritar por ajuda, então sufoca em uma dor crescente que te aperta a garganta e cala tudo ali. Diante da solidão só se pode lamentar. Você estende a mão, mas não há nada ali em lugar algum. Nos momentos em que mais precisa, tudo o que tem são seus medos e tempo. Tempo de sobra, e principalmente para remoer tudo aquilo que não se quer lembrar. E quando se está sozinho, todos os seus temores parecem reais e novos medos nascem de possibilidades que você jamais pensou existirem antes. Você não tem nada e teme que nunca terá. Se por ventura tiver um lugar...

O açoite dos anjos

Quando se vive no inferno, a doçura do perecer tenta até mesmo os anjos. Não há saída quando todas as direções te levam ao mesmo lugar, mas não seguir nenhum caminho consiste em se manter ali também. Às vezes me pergunto o que fazer, mas honestamente eu não sei. Tento respirar e espero que esperar dias melhores ajude de algo, mas não nutro tanta esperança quanto outrora tive. Quando seus demônios te tentam, o silêncio lá fora é ensurdecedor. A solidão te deixa sozinho com eles e é nesse momento que falam mais alto, gritando em sussurros sobre lugares que te tocam de um jeito que só eles sabem. Constantemente repito pra mim que eles estão errados, mas parece que continuo procurando motivos para acreditar neles e duvidar de mim. Tento me afogar em sonhos ao invés disso. Quando seus fantasmas te assombram, o futuro se torna um reflexo do passado. O tempo dilata em agonia conquanto cada passo parece te puxar de volta a um lugar do qual se está fugindo. Se lar é onde se está feliz e não há ...

O cadafalso de Morfeu

A vida é um eterno sonhar cujo onírico se desenrola em decepções. No cerne da expectativa reside o medo da frustração, mas é no olho da tempestade que vivemos e é na insatisfação que seguimos. Tal qual um pêndulo entre o esperar e o desesperar, sonhamos para construir os degraus do nosso cadafalso. Cada passo rumo à realidade nos afasta de nós mesmos e nos atira ao mundo. Podemos chamar isso de um tiro no escuro quiçá. Sofrer é um eterno conciliar da realidade cujo afeto nos determina de maneira imperativa que algo nos perturba. Sonhamos com prazeres maiores porque tentamos fugir do sofrimento que constantemente nos assola, mas se escaparmos do nosso nêmesis nos deparamos então com o ápice do tédio, da atimia e do vazio. Nos abrigamos em todo prazer estético, encontrando refúgio em paraísos artificiais e filosofias hedonistas. Viver é um eterno vir-a-ser onde o tempo revela quão inexorável o destino é. Dentro dos devires, devemos a nós mesmos as promessas de autorrealização. Mais do qu...