O açoite dos anjos
Quando se vive no inferno, a doçura do perecer tenta até mesmo os anjos. Não há saída quando todas as direções te levam ao mesmo lugar, mas não seguir nenhum caminho consiste em se manter ali também. Às vezes me pergunto o que fazer, mas honestamente eu não sei. Tento respirar e espero que esperar dias melhores ajude de algo, mas não nutro tanta esperança quanto outrora tive.
Quando seus demônios te tentam, o silêncio lá fora é ensurdecedor. A solidão te deixa sozinho com eles e é nesse momento que falam mais alto, gritando em sussurros sobre lugares que te tocam de um jeito que só eles sabem. Constantemente repito pra mim que eles estão errados, mas parece que continuo procurando motivos para acreditar neles e duvidar de mim. Tento me afogar em sonhos ao invés disso.
Quando seus fantasmas te assombram, o futuro se torna um reflexo do passado. O tempo dilata em agonia conquanto cada passo parece te puxar de volta a um lugar do qual se está fugindo. Se lar é onde se está feliz e não há lugar como o lar, então não deve haver lugar nenhum quando o lar é o lugar do qual se está fugindo. Lar de minhas memórias, fujo de mim mesmo.
Quando se sente condenado, tudo é uma busca por redenção. Existo enquanto expio e construo novos pecados aos quais expurgar mais tarde. Constantemente fujo da dor, mas a vida é um eterno açoite e viver é conviver com seus pesares. Por ora faço as pazes com meu nêmesis e encontro refúgio em um paraíso construído às pressas, onde os anjos se deixam açoitar junto a mim para reduzir a minha dor.
Desisto de fugir e existir da única forma que conheço. Respiro e espero por dias melhores. Afinal, se o eu é um outro, então o eu também pertence a um outro, já que o sujeito se constrói na narrativa que entrega ao seu leitor. Ofereço a quem ler todas as minhas possibilidades e devires e me comprometo a passar pela estação no inferno e sair num festim no qual todos os corações exultam.
Eu sei, Rimbaud, persistir e resistir é mais do que um pacto, é um pato. Do grego, pathos. De tudo o que mexe comigo e me faz seguir em frente. Não há almoço grátis e o único caminho é através da tempestade.
Dexisto.
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