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Mostrando postagens de outubro, 2018

Por trás dos olhos embaçados.

O mundo é uma prisão e a vida é uma sentença perpétua atrás de barras invisíveis - e essas são as do pior tipo, porque dão um gosto falso de liberdade. Enxergamos o mundo por trás dos nossos olhos embaçados e somos observados de volta pela sociedade, que nos julga e pune sem parar. Não fazemos contato de verdade com ninguém, porque a comunicação é um escambo de performances teatrais: nada além de superficialidades e bons modos para garantir a ilusão de um pouco de paz. O outro serve apenas como uma garantia de que não estamos totalmente desamparados quando, na verdade, estamos sim - e muito. O tempo todo. Sorrisos falso são trocados para preencher a lacuna eterna de conforto que nutrimos. Dizemos que estamos bem e que tudo vai ficar melhor porque é mais fácil mentir do que entrar em desespero; mas lá no fundo bem sabemos a verdade. Ninguém está bem e, se alguém nos diz que está, sabemos logo que é mentira. E se alguém nos diz que não está, imaginamos que também seja, mas mantemos as...

A beleza de todas as coisas.

A vida demanda paciência - mais paciência do que temos, na verdade - e às vezes isso faz parecer que vamos precisar de todo tempo do mundo para aprender a conviver com nossos fracassos e frustrações,  além de todos os anseios e complicações, mas esse tempo todo é uma coisa que o mundo não nos dá. Pelo contrário: o tempo corre tão rápido que às vezes ficamos pra trás, não conseguimos alcançar nossas metas e recuperar o que ficou, o que queríamos e o que ainda queremos. Além disso, suspeitamos que, uma vez perdido nosso objeto de desejo, não mais recuperaremos a chance e necessidade que ele supria e sempre estaremos desejando-o um pouco mais. Nesses casos, mentir se torna uma opção. Mentimos pra nós mesmos e nos protegemos da verdade, porque a verdade dói - e dor é uma coisa que não queremos. Há muita dor na vida pra optarmos espontaneamente por um pouco mais de sofrimento. Dizemos, então, que está tudo bem, que não há dor e que tudo segue de acordo com os planos. Sem mais delonga...

Ato primeiro.

Hoje eu fui a pessoa mais egoísta do mundo – e o pior é que não me arrependo disso. Tudo começou quando quis ser feliz. Simples assim: não tinha um bom motivo ou sequer uma bandeira a agitar em nome da felicidade. Só queria me dar por satisfeito para comigo mesmo. Algumas coisas não tem perdão e, tenho certeza, essa é uma delas. Como ouso eu desejar tamanha proeza quando há tanta gente sentindo-se mal? O que há de tão bom em mim que seja mais digno de felicidade do que eles? Eu não sabia e, bom, não me importava também. Hoje eu fui a pessoa mais feliz do mundo. Errei, mas fiz o que quis, defini meu onde, quando e como. Se é pra ser reprimido nessa vida, ao menos que não seja por mim. Foda-se .

Desesperança.

Indubitavelmente, não sei metade do que digo que sei, e isso é tudo que sei. Também não vejo metade do que penso ter visto, e isso eu vejo bem. As coisas que eu digo são pensadas apenas pela metade, sendo que a outra metade é esquecida logo após deixar a minha boca. Acho estranho esse exercício de nunca me recordar daquilo que acabo de falar, mas tudo passa a fazer sentido quando penso que, se a mensagem fosse pra mim eu a teria apenas pensado. Já que a disse, é porque devia ser para alguma outra pessoa. Indubitavelmente, tudo aquilo no qual acredito é apenas aquilo em que decidi acreditar. Não significa que seja verdade (assim como não significa que seja mentira); apenas significa que... Isso mesmo, reticências. Uma continuação. A gente acredita em qualquer coisa para poder continuar com o que quer que seja. Acho estranha essa ideia de precisar de um suporte maior (uma esperança) para prosseguir, como se a própria vida não fosse um motivo bom o bastante para se viver e tentar ser m...

Mausoléu das lembranças ruins.

Havia um resquício de memória perdido em algum lugar e, embora eu soubesse disso, era uma lembrança que eu não queria encontrar. Essas são as que mais temos, porque nos afligem. É fácil se livrar de bons momentos - basta vivê-los -, mas monstros perseguem, fantasmas assombram. E a vida é cheia de fantasmas. Quantos erros é preciso cometer para se aprender a deixar de errar? Já perdi a conta de quantos eu cometi e quantos não pude evitar de cometer. É fácil pensar eventualmente que se cresceu, amadureceu e aprendeu a fazer a coisa certa, mas assim que se vive um pouco mais fica óbvio que não se aprendeu coisa alguma. Nunca estaremos preparados para todas as possibilidades que a vida proporciona. Muita gente acredita que sim, acho que é mais fácil mentir pra si mesmo e nunca admitir seus próprios erros. Cada um tem sua estratégia para se conformar com a insatisfação e fracasso: enquanto alguns mentem dessa forma, outros enterram os erros em arrependimento e culpa. Eu tento fazer a s...

Naufrágio à beira-mar.

No silêncio que rompia o dia, ouvia meus próprios pensamentos e percebia o barulho que a própria vida me proporcionava. Preferia a confusão lá fora e a quietude aqui dentro, mas não é assim que as coisas funcionam. Se pudesse fechar os olhos e fazer tudo sumir, fecharia os olhos e deixaria de ser, deixaria de existir. Não é desistência se não se está ali, se nunca houve algo ao qual se abrir mão - e às vezes abrir mão das coisas é o que mais dói. Deixar de ter e ser o que se quer ou é. Existir só dói quando desistir não é uma opção viável. Pudera eu desistir de mim mesmo e existir em sintonia com todo o resto, sem preocupações sobre o que fazer, pensar ou querer. Apenas ser levado pela onda deve ser tão fácil que chega a ser invejável quem consegue não se preocupar com sua singularidade. Em tempos de individualismo, tomar decisões é cruel, porque a gente nunca sabe o que quer, se vai continuar querendo ou se quis a coisa certa. Existe uma responsabilidade, mas escolher tê-la nunca f...