Por trás dos olhos embaçados.

O mundo é uma prisão e a vida é uma sentença perpétua atrás de barras invisíveis - e essas são as do pior tipo, porque dão um gosto falso de liberdade. Enxergamos o mundo por trás dos nossos olhos embaçados e somos observados de volta pela sociedade, que nos julga e pune sem parar. Não fazemos contato de verdade com ninguém, porque a comunicação é um escambo de performances teatrais: nada além de superficialidades e bons modos para garantir a ilusão de um pouco de paz. O outro serve apenas como uma garantia de que não estamos totalmente desamparados quando, na verdade, estamos sim - e muito. O tempo todo.
Sorrisos falso são trocados para preencher a lacuna eterna de conforto que nutrimos. Dizemos que estamos bem e que tudo vai ficar melhor porque é mais fácil mentir do que entrar em desespero; mas lá no fundo bem sabemos a verdade. Ninguém está bem e, se alguém nos diz que está, sabemos logo que é mentira. E se alguém nos diz que não está, imaginamos que também seja, mas mantemos as aparências porque é muito trabalhoso nos preocuparmos com os outros quando estamos tão ocupados tentando manter as aparências. A única verdade possível é o silêncio. Enxergamos o mundo por trás dos nossos olhos embaçados e, por isso, tudo aquilo que nos vem alto e claro soa como uma mentira. É preciso estar igualmente corrompida a mensagem para parecer verdadeira.
A mente é um deserto e a infertilidade é o que nos mantém vazios por dentro. Ora somos um inferno e queimamos até os ossos, ora somos frios e mortos por dentro. Não há meio termo, vivemos nos extremos e invejamos a grama do vizinho porque não há qualquer sinal de que algo irá florescer em nossas dunas. Enxergamos o mundo por trás dos olhos embaçados porque é mais fácil acreditar nas miragens que vemos logo adiante. Há uma mentira que precisa ser contada porque há uma mentira em que precisamos acreditar. Mesmo as fantasias surgem pela necessidade de se fugir da realidade, porque a realidade nua e crua é triste, e tristeza já temos de monte.
Tentamos esconder tudo aquilo que sentimos e, mais que isso, tudo aquilo que não conseguimos sentir. Felicidade é uma mentira que as pessoas contam, e só não desmentem porque ninguém quer dar o primeiro passo e assumir que nunca foi feliz. De olhos fechados, revivemos momentos e acreditamos que alcançamos o pico da alegria, quando a nostalgia nos fere pela falta de algo que nunca vai voltar. A felicidade é tudo aquilo que vivemos sem notar e então nos damos conta porque sentimos falta, mas nesse momento é tarde e tudo o que havia de bom se foi e o mundo voltou a ser o que sempre foi.
O coração é um poço e nele nos afogamos. Sentimos mágoa e lágrimas transbordam como veneno, contaminando tudo e espalhando a morte. Estamos mortos por dentro e morremos um pouco mais conforme vivemos, mas não paramos porque temos responsabilidades a cumprir. Responsabilidades com os outros, de manter as aparências e o funcionamento social, custe o que custar. Seja o melhor ator que alguém já viu, e então diga que nunca esteve atuando, que tudo foi real - seja tão bom a ponto de convencer a si mesmo disso. Apenas assim é possível continuar. Mas mentir dói, e dor é algo que não queremos - então essa responsabilidade para com os outros, ao mesmo tempo que nos une, nos afasta. Não queremos nos abrir a ponto de estragar o disfarce que com tanto custo criamos; mas não queremos nos afastar a ponto de nos sentirmos sozinhos e termos que encarar a verdade. Enxergamos tudo por trás dos nossos olhos embaçados porque se estivessem límpidos veríamos a realidade tal qual é - e isso não queremos.
A vida é dor - do princípio ao fim. E ainda mais quando se sente que não se vive certo. Estamos todos vivendo errado ou é errado viver num todo? A resposta não é realmente tão importante assim. Por trás dos nossos olhos embaçados, enxergamos tudo o que há, mas vivemos à parte. A existência nos é estranha porque não nos parece pertinente pertencer a ela. Existir é horrível em si, e a vida é apenas o instrumento pelo qual a existência se propaga. Quando a vida fica insuportável, desistir se torna um alívio. Dexisto.

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