Desincoerente, dexistente e indestinável
Antes de ser algo, é preciso saber o que é fruto de sua experiência e o que advém de sua própria existência. O joio e o trigo se misturam de tal forma que é impossível diferenciar o que se é e o que se pensa ser a menos que se afaste um pouco de si mesmo e se permita observar por um breve instante o que se é na ausência de si mesmo.
A verdade é aquilo que melhor justifica a coerência do mundo ao seu ego até que uma explicação melhor surja, ou até que a incoerência seja tão grande que não se possa mais disfarçar que se perdeu no meio do caminho. É um longo caminho, e as oportunidades para cair e tropeçar surgem a todo instante.
Eu sou o que penso ser, ou penso ser aquilo que me conforta?
A princípio, é difícil sequer imaginar como pensar essa questão. Se fosse assim tão simples, não seríamos muitas vezes aquilo que nos desconforta - como poderíamos desaprovar nossa própria existência em busca de coerência no mundo quando escolhemos cada passo tomado com busca na manutenção dessa mesma coerência?
Apesar de sermos aquilo que somos, preferimos por vezes acreditar também que somos aquilo que poderíamos ter sido, ignorando o fato de que não o fomos pela simples comodidade de, assim, evitarmos nos tornar esse sujeito que desaprovamos. Assim, nos desaprovamos antes mesmo de nos tornarmos aquilo que desaprovamos em nós mesmos.
Não há resposta simples, mas há um caminho e, ainda que não haja um destino final, há um caminho.
E isso é tudo.
É preciso conviver com essa incompletude, com essa insatisfação constante. Não saber o que haverá em seguida e nem onde o caminho tomado nos leva. É preciso aceitar a insatisfação e a desaprovação que a incerteza, o remorso e o medo nos trazem. Só não é possível ficar parado. A única opção que não temos é não sermos.
Podemos desaprovar todo o caminho, mas devemos segui-lo e, lá na frente, devemos saber que é o lugar certo. O único lugar que não podemos estar é no ponto de partida. Nunca houve um pódio de chegada afinal, tudo o que houve era um caminho a seguir. O lugar certo é onde você está, onde quer que isso seja. E, não importa onde você chegou, essa foi a melhor decisão possível em cada oportunidade e ocasião que houveram.
Se não há resposta certa, também não há pergunta errada.
Tudo o que existe é aquilo que há, principalmente quando você não está ali tentando justificar a coerência do que poderia existir.
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