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Crônica de uma ausência.

Ela nunca disse adeus. Estava terminado antes que eu soubesse, mas como eu poderia saber? Tinha tantas expectativas, sonhos, planos e comprometimento. Prometi que estaria lá sempre que se fizesse necessário e cumpri a risca isso, achei que fosse o mínimo que eu poderia fazer - e fiz por amor. Queria felicidade: não só a minha, mas a minha vinha somada à dela, era inconciliável. Essas coisas sempre são. Precisávamos apenas de ar naquele momento. Dar um respiro, se recuperar e depois mandar um alô quando estivesse tudo bem. Ela disse que não me abandonaria contanto que eu ainda a quisesse por perto, que era ela quem sempre era abandonada. Eu disse que queria e que não faria isso. Nunca fiz, muito pelo contrário. Gostaria de dizer que sinto mágoa, mas entendo o lado dela, só queria que ela entendesse o meu. Eu nunca pedi para ser salvo, eu só precisava de companhia. Ela disse que estaria lá pra me oferecer isso se eu precisasse e, quando eu mais precisei de conforto, pedi por isso. Achei ...

Crônica de um vazio imensurável.

Diante do abismo só se pode cair. Você sorri porque não há mais nada a fazer. Finge felicidade e compra as ideias de bem-viver quando tudo o que pode fazer é seguir em frente - e o abismo está logo ali. Dias melhores virão, você sabe disso e até repete para si mesmo, mas quanto tempo demorarão pra vir? Você será forte o suficiente para esperar por isso? Você espera que sim, mas a tormenta é cada vez maior e sua voz mal sai quando você tenta gritar por ajuda, então sufoca em uma dor crescente que te aperta a garganta e cala tudo ali. Diante da solidão só se pode lamentar. Você estende a mão, mas não há nada ali em lugar algum. Nos momentos em que mais precisa, tudo o que tem são seus medos e tempo. Tempo de sobra, e principalmente para remoer tudo aquilo que não se quer lembrar. E quando se está sozinho, todos os seus temores parecem reais e novos medos nascem de possibilidades que você jamais pensou existirem antes. Você não tem nada e teme que nunca terá. Se por ventura tiver um lugar...

O açoite dos anjos

Quando se vive no inferno, a doçura do perecer tenta até mesmo os anjos. Não há saída quando todas as direções te levam ao mesmo lugar, mas não seguir nenhum caminho consiste em se manter ali também. Às vezes me pergunto o que fazer, mas honestamente eu não sei. Tento respirar e espero que esperar dias melhores ajude de algo, mas não nutro tanta esperança quanto outrora tive. Quando seus demônios te tentam, o silêncio lá fora é ensurdecedor. A solidão te deixa sozinho com eles e é nesse momento que falam mais alto, gritando em sussurros sobre lugares que te tocam de um jeito que só eles sabem. Constantemente repito pra mim que eles estão errados, mas parece que continuo procurando motivos para acreditar neles e duvidar de mim. Tento me afogar em sonhos ao invés disso. Quando seus fantasmas te assombram, o futuro se torna um reflexo do passado. O tempo dilata em agonia conquanto cada passo parece te puxar de volta a um lugar do qual se está fugindo. Se lar é onde se está feliz e não há ...

O cadafalso de Morfeu

A vida é um eterno sonhar cujo onírico se desenrola em decepções. No cerne da expectativa reside o medo da frustração, mas é no olho da tempestade que vivemos e é na insatisfação que seguimos. Tal qual um pêndulo entre o esperar e o desesperar, sonhamos para construir os degraus do nosso cadafalso. Cada passo rumo à realidade nos afasta de nós mesmos e nos atira ao mundo. Podemos chamar isso de um tiro no escuro quiçá. Sofrer é um eterno conciliar da realidade cujo afeto nos determina de maneira imperativa que algo nos perturba. Sonhamos com prazeres maiores porque tentamos fugir do sofrimento que constantemente nos assola, mas se escaparmos do nosso nêmesis nos deparamos então com o ápice do tédio, da atimia e do vazio. Nos abrigamos em todo prazer estético, encontrando refúgio em paraísos artificiais e filosofias hedonistas. Viver é um eterno vir-a-ser onde o tempo revela quão inexorável o destino é. Dentro dos devires, devemos a nós mesmos as promessas de autorrealização. Mais do qu...

Destroços dos troços.

Vivemos no limite de tudo, no limite de nós mesmos. Em torno do abismo, lá onde tudo é beira. Seguir em frente é desabar, mas olhar pra trás é se deparar com os destroços dos troços todos. Que troços? Sabe-se-lá o que poderiam estes ser. Carecem tanto de nome quanto de sentido, mas destroçam-se ainda assim. É solitário onde estudo se rompe, mas é arriscado ter companhia quando tudo parece se romper ao seu redor. A vida por um fio não é o suficiente para tecer redes e conexões. Carece tanto de força quanto de capacidade. Não é capaz de ser forte e nem tem força para mudar isso. Parece solitário e por vezes de fato o é; mas não ouse roubar da solidão de outro se não estiver disposto a compartilhar da sua. Somos fios sem nós e longe de se atarem. Somos apenas eus  e mais eus  e outros eus . Falamos também sós como em telefones sem fio, e falamos de nós para nós e apenas conosco, mas na companhia de outro que sempre estará do outro lado, segurando em vão a ponta de um fio que nun...

L'Étrange Saison.

 Bom dia, tristeza, seja bem-vinda de volta. Tempos estranhos requerem saudações inesperadas, como velhas notícias reencontrando seu lugar na modernidade. Pois tudo que é moderno tende a estar em alta, ainda que por um breve instante. Aliás, se não for por um breve instante, não pode ser moderno. Tudo isso tem a ver com a brevidade. Viver às pressas e correr contra o tempo para tentar acompanha-lo um pouco mais. Enquanto isso, nós apenas fluímos com nosso fluxo cronológico, inevitável em sua densidade. Como podemos nos considerar modernos se estamos sendo constantemente ultrapassados? A sociedade moderna é repleta de antiquários tentando esconder-se por trás de novidades por um instante mais. Mas é apenas um instante afinal. Somos rascunhos de lembranças que poderiam ser guardadas num museu caso fossem importantes. Somos fadados ao esquecimento e tédio da mesma forma que o vazio está aí para ser preenchido. E, em nosso esquecimento, deixamos um vazio a ser preenchido por outro brev...

Dus temps seules.

Sinto-me só. Sigo em busca de refúgio contra mim mesmo na multidão, mas, de alguma forma, isso não me traz conforto algum. Justamente pelo contrário, parece intensificar o deslocamento e mal-estar que sinto. De certa forma, parece que ao invés de me fazer inserido, me faço exaurido ali; exausto até os ossos, esgota-se o que há de mim. Busco refúgio, então, na solidão. Não que eu me sinta cheio - muito pelo contrário: é o vazio que me abomina. Agora sinto-me não apenas só, mas também vazio. Não pertencer a nenhum lugar é exaustivo, mas não pertencer a si mesmo é desesperador. E, conforme o tempo passa, você continua a se distanciar de si mesmo (daquele velho eu  que costumava te ser tão familiar e agora passa a ser apenas nostálgico) para se tornar alguém que espera não se sentir vazio, que espera ter um lugar, que espera chegar nalgum lugar e sentir-se, enfim, cheio. Afinal, é preciso, pelo menos, tentar. E quando se é o réu, vítima e juiz é difícil se defender das acusações. Quand...

A traição das ideias.

Isto não é um texto. Qual o momento certo de admitir que a memória te traiu e deixou um vácuo de sentido entre a realidade e a possibilidade? Não que a semântica das coisas tenha deixado de existir, ela só deixou de se aplicar naquele momento. As metáforas se tornam literais e o mundo se torna limítrofe. Qual o momento certo de admitir que a fantasia te traiu e todos os sonhos que você nutria eram, em realidade, pesadelos bem disfarçados de felicidade? Não que seus sonhos não fossem bons - eles só não eram bons pra você. Todas as outras pessoas parecem felizes e, enquanto você se pergunta se elas realmente o estão, você se dá conta de que você não está. Qual o momento certo de admitir que a rotina te traiu e se tornou enfadonha, te fazendo se sentir um estranho em meio a tudo que lhe era familiar? Não que você tenha mudado, você apenas se deu conta de quão dissonante tudo é, como se o seu eu  de hoje pudesse ver melhor o que o eu  de ontem relutava em ver. A paralaxe em ação. ...

Esquizovida

Beira ao precipício seguir em frente, caminhar despreocupadamente e acreditar num pouco de paz. Além disso, é impossível voltar atrás uma vez que se veja o abismo, assim como retomar aquele pouco de paz com o qual se faz ilusão. Abismados, então, nos desesperamos. Assim, o fim do espírito é o início do desespero, a apoteose do desapontamento a o ápice da frustração. Beira ao delírio seguir em frente e acreditar nalgo melhor. Diante da incapacidade, insatisfação, infortúnio e imprecisão cósmica, seria loucura crer que algo diferente disto ocorreria, ter fé e marchar em ré em direção à razão. Assim, ao passo em que se continua a desejar com a impressão da satisfação, mais do mesmo se deseja, iludindo-se com a impressão do progresso. Beira ao suicídio seguir em frente e viver intensamente. Aquele que mais ama a vida segue em direção ao seu fim, desapontado com a incapacidade de contemplar uma vida em dignidade e satisfação. Aquele que mais a odeia, vive como forma de flertar com a morte, ...

Contradição numa casca-de-noz

Em certa altura, todos nós nos sentimos um pouco estranhos, perdidos, nos perguntando o que foi que aconteceu ou onde foi que erramos. O que houve naquele momento que fez com que tudo ocorresse diferente do esperado? Será que realmente tínhamos o controle o tempo todo ou será que essa era só mais uma ilusão nossa para inferir coerência num mundo que, na verdade, não a possui, mas nos possui a seu bel prazer e coerente à nossa incoerência? Em certa altura, todos nós somos desconhecidos a nós mesmos. Por mais que insistamos que as circunstâncias nos levam a fazer uma coisa ou outra - e que, por vezes, essas coisas venham em contradição à nossa moral -, em algum momento temos que admitir que somos frutos dessas mesmas circunstâncias e que quem somos não passa de um amontoado de opções bem ou mal feitas. A ética pessoal existe à altura em que não contradigo aquilo que o mundo me proporcionou até então. Mas sou pura contradição. Em certa altura, todos nós nos sentimos inquilinos de nós mesm...