O cadafalso de Morfeu

A vida é um eterno sonhar cujo onírico se desenrola em decepções. No cerne da expectativa reside o medo da frustração, mas é no olho da tempestade que vivemos e é na insatisfação que seguimos. Tal qual um pêndulo entre o esperar e o desesperar, sonhamos para construir os degraus do nosso cadafalso. Cada passo rumo à realidade nos afasta de nós mesmos e nos atira ao mundo. Podemos chamar isso de um tiro no escuro quiçá.

Sofrer é um eterno conciliar da realidade cujo afeto nos determina de maneira imperativa que algo nos perturba. Sonhamos com prazeres maiores porque tentamos fugir do sofrimento que constantemente nos assola, mas se escaparmos do nosso nêmesis nos deparamos então com o ápice do tédio, da atimia e do vazio. Nos abrigamos em todo prazer estético, encontrando refúgio em paraísos artificiais e filosofias hedonistas.

Viver é um eterno vir-a-ser onde o tempo revela quão inexorável o destino é. Dentro dos devires, devemos a nós mesmos as promessas de autorrealização. Mais do que ao mundo, devemos a nós mesmos a promessa de cumprir nossos sonhos, viver nossas paixões, sofrer nossas angústias e sairmos destas para sonharmos um pouco mais, nos decepcionarmos um pouco mais e bailarmos no olho da tempestade. Onde tudo é fogo, queimar-se é inevitável. Na calmaria do mar é que não se chega a lugar algum.

Dexisto.

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