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Mostrando postagens de janeiro, 2019

Irrisório escapista.

Quando o mundo é denso, o peso sobre os ombros parece te puxar pra trás e firmar em sua cabeça palavras e mais palavras cruéis - fragmentos de sentenças não finalizadas que você irá completar da pior maneira possível. Os olhos pesam e a garganta fecha, e isso é tudo o que pode ser feito nesse instante, pois todo o resto é impossível ou inadequado. Se ausentar de tudo é um desejo. Quando a memória é frágil, toda felicidade facilmente se esvai e apenas arrependimentos restam, lembrando de tudo o que devia ser feito e de tudo o que devia ter sido evitado - o que, agora, não faz realmente diferença, mas a insistência se faz cruel e é para isso que ela está ali. A tristeza bate forte e uma vida mal vivida passa a ser o equivalente a um pedido cósmico de desculpa. Ali os sonhos morrem. Quando ficar acordado não traz prazer e dormir não traz sonhos, tanto faz o que acontece. O melhor é não-. Não é preciso concluir a oração, pois orações não funcionam mais. Qualquer coisa que pudesse ser ...

O sol cruel.

O vento sopra por dividir, mas o sol ilumina porque é cruel. Cinde a tempestade a olhos vistos uma sombra que oculta não pode estar e nem deve. Poderia outrora a chuva arrastar em seu pesar nuvens que cindem e ao oculto levam a realidade, mas apenas de tristeza não viveria o tempo - está ali para toda estação e em suas mais variadas formas. Bem ou mal, apenas o é. A fotografia guarda o que a memória não pode, pois detalhes te levam à revelação - e a verdade é melhor permanecer oculta, caso contrário uma lembrança pode perder sua magnificência. Poderia no desfoque haver um gesto amigo do presente ao futuro eu, que do passado mal recorda e bem não o quer fazer, mas o presente é egoísta é quer retornar na forma do impossível que não mais é. O belo há para que o feio não seja visto, em sua beleza ajuda àquele que não quer ser visto, sendo paradoxal o fato de que o feio apenas o é pois existe um mais belo ao que se comparar. Há beleza em todas as coisas, mas elas reduzem conforme o rea...

Tudo aquilo que nitidamente não é.

Relações humanas são complicadas, pois envolvem não apenas demandas e conflitos, como também expectativas advindas do outro e que formaram esse entrelaçamento social a princípio. Muitas vezes nos pegamos pensando sobre nosso lugar no mundo, assim como o sentido da nossa existência - donde viemos e pra onde vamos - , mas quando é que paramos para pensar no lugar do outro no mundo? Mais que isso, para haver a presença dele na nossa vida, completando algum furo presente na nossa existência, qual o lugar que ele ocupa no nosso  mundo? Pois tudo o que se faz presente em nossas vidas é algo de suma importância, ainda que seja destrutivo, algo essencial que só permitimos que continue presente devido à alta estima que damos ao seu papel em nossa sobrevivência. O outro, portanto, se torna naquilo que nós não somos - daí a importância de mantê-lo em nossas vidas. Completudes pertencem à fragilidade existencial, pois tudo aquilo que está completo pode ser despedaçado, enquanto o que se enc...

A angústia de Dostoiévski.

A virtuosidade é uma doença cujo maior sintoma é a ilusão do bem-estar. Estar bem é se sentir bem ou simplesmente não se sentir mal? É uma questão que aparenta ser ambígua, mas apenas o é caso sua visão de mundo seja monocromática, onde não ser algo significa ser seu extremo oposto - e as coisas não são assim. Entre o preto e o branco existem tons, e não apenas de cinza, como aqueles presentes em cada elemento que compõe o espectro de cores. A vida é diversa assim e reduzir seu estado a apenas duas possibilidades é simplório e cego, de forma que não te permite enxergar as coisas como de fato são. Equilíbrio significa impedir a manutenção de estados ruins e aproveitar os estados bons para poder retornar à neutralidade, afinal, uma sobrecarga de prazer precisa ser consumida logo, uma vez que este é efêmero. Daí a existência de tantas formas de prazer, igualmente curtas e singulares; enquanto os estados de angústia se prolongam por quanto tempo você permitir que fiquem. Dizem que as pe...

O valor de se pôr à parte.

O mundo que se tem nem sempre é o mundo  que se quer, mas o mundo que se quer sempre está inserido no mundo que se tem, pois é este que dá a base para reconhecer na ausência os desejos que é preciso realizar. Mas há limites, como todo resto, e, portanto, o mundo é limitado por aquilo que nele está contido. Desejar mais do que se pode ter está na moda e, caso não fosse assim, de nenhuma outra forma poderia ser. Se a busca não fosse sustentada pelos impossíveis que nos cercam, então nada faríamos para torna-los possíveis, plausíveis, concretos em nosso limitado alcance. Se não quiséssemos o que não podemos ter, nenhum avanço haveria e nada faríamos senão flertar com a mansidão do dia. Uma vida pacata se faz na ausência da cobiça, embora não num vazio completo. O vazio da existência te permite se preencher com o que quer que haja por aí, abstraindo significado de qualquer coisa que tiver e puder - o contrário do vazio tedioso de quando o mundo não mais te oferece prazer, e tudo te ...