Tudo aquilo que nitidamente não é.
Relações humanas são complicadas, pois envolvem não apenas demandas e conflitos, como também expectativas advindas do outro e que formaram esse entrelaçamento social a princípio. Muitas vezes nos pegamos pensando sobre nosso lugar no mundo, assim como o sentido da nossa existência - donde viemos e pra onde vamos - , mas quando é que paramos para pensar no lugar do outro no mundo? Mais que isso, para haver a presença dele na nossa vida, completando algum furo presente na nossa existência, qual o lugar que ele ocupa no nosso mundo? Pois tudo o que se faz presente em nossas vidas é algo de suma importância, ainda que seja destrutivo, algo essencial que só permitimos que continue presente devido à alta estima que damos ao seu papel em nossa sobrevivência. O outro, portanto, se torna naquilo que nós não somos - daí a importância de mantê-lo em nossas vidas.
Completudes pertencem à fragilidade existencial, pois tudo aquilo que está completo pode ser despedaçado, enquanto o que se encontra, de alguma forma, quebrado, no máximo poderá aumentar sua falta. Isso não quer dizer que, se houverem faltas, a pessoa se sentirá menos frágil - muito pelo contrário, se encontrará em igual (ou até maior) fragilidade, mas ao menos possuirá uma aceitação e resistência maior a esse fato. Com isso em mente, é possível perceber que a diminuição da fragilidade é igualmente inversa ao aumento da insegurança, pois a completude de algo significa que haverá uma facilitação de sua destruição. Correlações negativas fortes, é isso o que há. A saída para isso, portanto, é continuar frágil, mas tapar o buraco que falta com a presença de um outro, que pode te completar e se encontra igualmente incompleto, de forma que você possa encontrar lugar na insegurança dele em troca. Há uma relação de mútuo auxílio aqui.
Existencialismo compreende na ação o estabelecimento de um sentido na vida, mas não diz o que a ação do outro contribui nisso - e é um elemento igualmente essencial, sabe? Afinal, está sempre presente também. A dúvida sobre o sentido da vida só surge porque cada um de nós não é uma criatura única e solitária no universo. Se fosse esse o caso, toda ação consistiria em sobrevivência; mas, por sermos criaturas sociáveis, as ações tendem a construir algo voltado para a humanidade. Como negar o valor de um outro nisso, portanto?
A princípio, pode parecer confusa a ideia de que um outro contribua de forma tão crucial em nossa vida, mas é algo simples de ser averiguado: começamos pela ideia de que todos que estão na nossa vida só permanecem lá porque são essenciais de alguma forma, caso contrário sua ausência não seria sentida e sua presença não seria constantemente requerida para nos garantir conforto. E conforto é praticamente um sinônimo de sobrevivência - quer dizer que está acontecendo com sucesso. Mas qual é o papel que o outro está ocupando na nossa vida? É algo que ele diz ou faz? Com certeza, ambos. E, para descobrir o que é, basta permitir haver silêncio. Há mais verdades sendo ditas no silêncio do que coisas sendo expressas publicamente. Assim, tudo o que te envolve, é expresso numa troca interpessoal, mas, tudo aquilo que nitidamente não é você, se faz presente no silêncio. Na expectativa que você nutre pelo outro - o que quer que ele diga ou faça, ou até mesmo o que quer dizer ou fazer por ele.
É no silêncio que a verdade se revela. Não apenas sobre você, mas sobre o outro e como suas existências se comunicam. Nesse curto espaço de tempo em que nada é dito ou feito, deixe de existir e permita que o outro o faça e, dessa forma, te alcance. Desista de tentar e exista em comunhão com o mundo. Dexisto.
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