O valor de se pôr à parte.

O mundo que se tem nem sempre é o mundo  que se quer, mas o mundo que se quer sempre está inserido no mundo que se tem, pois é este que dá a base para reconhecer na ausência os desejos que é preciso realizar. Mas há limites, como todo resto, e, portanto, o mundo é limitado por aquilo que nele está contido.
Desejar mais do que se pode ter está na moda e, caso não fosse assim, de nenhuma outra forma poderia ser. Se a busca não fosse sustentada pelos impossíveis que nos cercam, então nada faríamos para torna-los possíveis, plausíveis, concretos em nosso limitado alcance. Se não quiséssemos o que não podemos ter, nenhum avanço haveria e nada faríamos senão flertar com a mansidão do dia. Uma vida pacata se faz na ausência da cobiça, embora não num vazio completo. O vazio da existência te permite se preencher com o que quer que haja por aí, abstraindo significado de qualquer coisa que tiver e puder - o contrário do vazio tedioso de quando o mundo não mais te oferece prazer, e tudo te parece um absurdo, inalcançável e impossível de se aproveitar.
Apesar disso, buscar sentido e realizar conquistas não implicam na mesma coisa - longe disso -, pois o vazio persiste enquanto houver vida. O mundo que desejamos sempre se amplia, conforme o mundo que temos nos permite enxergar além e vislumbrar novas opções que antes sequer éramos capazes de conceber.
Se tudo fizesse sentido e fosse realizável, então logo haveria conclusão e o vazio existencial daria lugar ao tédio - puro em sua morbidez e profundidade. Para nossa sorte, porém, não faz. E, embora isso traga sofrimento, por vezes é nessa falta de concretização que surge o prazer. Nenhuma busca traz felicidade pela sua possibilidade de se realizar, mas sim pela capacidade de aproximação que advém desta. A vida é um processo contínuo de luta e, se não houver luta, não há sentido viver. Mas às vezes é preciso desacelerar e se pôr à parte disso tudo.
Da mesma forma que o mundo não se apresenta da forma que queremos, nós também não nos apresentamos a ele da forma com que ele quer, então somos postos na obrigação de perseguir de forma ininterrupta a construção do mundo segundo sonhamos. Mas a busca não tem fim e todos acreditam que deve ter, o que, por sua vez, nos leva a um abismo de decepção. Nos exigimos mais do que somos capazes de fazer e nos punimos mais do que merecemos. A vida é feita de excessos, principalmente os que nos fazem mal.
Por isso, de vez em quando é bom se pôr à parte e perceber que está tudo bem em ser um fracasso, em ficar pra trás e se sentir frustrado. Talvez não seja a hora de realizar algo ou, quem sabe, talvez seja preciso perseguir mais um pouco. Prolongar a busca um pouco mais e desistir de ser perfeito pra se permitir existir como de fato é. Dexisto.

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