Irrisório escapista.
Quando o mundo é denso, o peso sobre os ombros parece te puxar pra trás e firmar em sua cabeça palavras e mais palavras cruéis - fragmentos de sentenças não finalizadas que você irá completar da pior maneira possível. Os olhos pesam e a garganta fecha, e isso é tudo o que pode ser feito nesse instante, pois todo o resto é impossível ou inadequado. Se ausentar de tudo é um desejo.
Quando a memória é frágil, toda felicidade facilmente se esvai e apenas arrependimentos restam, lembrando de tudo o que devia ser feito e de tudo o que devia ter sido evitado - o que, agora, não faz realmente diferença, mas a insistência se faz cruel e é para isso que ela está ali. A tristeza bate forte e uma vida mal vivida passa a ser o equivalente a um pedido cósmico de desculpa. Ali os sonhos morrem.
Quando ficar acordado não traz prazer e dormir não traz sonhos, tanto faz o que acontece. O melhor é não-. Não é preciso concluir a oração, pois orações não funcionam mais. Qualquer coisa que pudesse ser posta ali não seria adequada. Nada faria sentido, porque tudo se encaixa bem. Nada precisa de fim e o fim é a melhor coisa que poderia acontecer. Fugir vai perdendo o sentido.
Os dias passam e seria melhor que corressem, mas se arrastam. Quanto tempo falta para não faltar mais tempo nenhum? Podia ter sido ontem o fim, mas hoje continuo e na esperança de que amanhã não venha - mas vem, porque o azar e a contradição são mister na arte de surpreender, mas entediado permaneço. Será que teria sentido estar de qualquer outra forma? Desvaneço.
Desisti tantas vezes quanto pude, mas desisto de desistir, porque cansa. E eu tô cansado de estar cansado. Podia ser mais fácil, mas as coisas não são tão fáceis assim. Viver facilmente é difícil, e as dificuldades facilmente vêm. Quem me dera as cortinas se fechassem, mas a peça ainda é longa. Me peça o que quiser, só não fique pro segundo ato, por favor. Dexisto.
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