Crônica de uma ausência.
Ela nunca disse adeus.
Estava terminado antes que eu soubesse, mas como eu poderia saber? Tinha tantas expectativas, sonhos, planos e comprometimento. Prometi que estaria lá sempre que se fizesse necessário e cumpri a risca isso, achei que fosse o mínimo que eu poderia fazer - e fiz por amor. Queria felicidade: não só a minha, mas a minha vinha somada à dela, era inconciliável. Essas coisas sempre são.
Precisávamos apenas de ar naquele momento. Dar um respiro, se recuperar e depois mandar um alô quando estivesse tudo bem. Ela disse que não me abandonaria contanto que eu ainda a quisesse por perto, que era ela quem sempre era abandonada. Eu disse que queria e que não faria isso. Nunca fiz, muito pelo contrário. Gostaria de dizer que sinto mágoa, mas entendo o lado dela, só queria que ela entendesse o meu.
Eu nunca pedi para ser salvo, eu só precisava de companhia. Ela disse que estaria lá pra me oferecer isso se eu precisasse e, quando eu mais precisei de conforto, pedi por isso. Achei que era de bom grado. Estávamos juntos emocionalmente, apenas dando espaço para respirar. Mas ela queria continuar. Eu estava errado. Achei demais. Foi demais pra ela. Como sempre, fui deixado de lado.
Ela disse que era ela quem era abandonadada porque não a aturavam, mas foi isso o que fez na primeira oportunidade que teve. Queria poder odiar ela, culpa-la, mas eu entendo e ainda amo ela. Como se dá um tempo de amar? Eu tenho companhia. Recebi companhia de muita gente e sou grato por isso, hoje vejo que não estou sozinho; mas a ausência dela me marca de um jeito que dói sem tamanho.
Uma risada no meio do dia. As compras aleatórias. Brincas com os gatos. Acordar juntos. Ver desenhos. Não era nada especial, mas tudo era mágico. Como se dá um tempo de sentir saudade? Eu aceito que ela não me queira, mas não consigo deixar de sentir dor ao perceber em tudo o que se foi. Eu ouvi cada queixa e fiz por onde melhorar para dar certo. Achei que estivesse conseguindo.
Hoje é uma falta que eu não sei como preencher. As pessoas preencheram o vazio que eu sentia, mas ela me mostrou outro que eu não sei como ocupar. Dizem que o tempo cura tudo, mas por que não tivemos tempo suficiente para nos curar e vivermos o melhor de nós? Eu nunca estive triste por ela, mas ela me mostrava que eu podia ser feliz porque o mundo ao lado dela parecia mais bonito.
Se eu sufocava ela ao achar que a vida ao lado dela era melhor, eu apenas posso sentir muito, mas era. Hoje vou ter que aprender a viver com uma ausência. Me ausentei de uma falta para conhecer outra. Não sei se a troca foi justa, mas muita gente torce por mim. Queria estar torcendo também. Por enquanto, eu continuo sentindo falta de tudo aquilo porque eu não vi o fim chegar e eu estava disposto a manter aquilo por nós.
Eu não sei dizer quando começou ou onde terminou, só sei que vivi algo. Mas não houve adeus nenhum. Sinto que vivo no infinitivo de uma ausência. Ausenta-me algo. Sei bem o nome do que me falta, mas não ouso pronunciar para não ter que catar os cacos que me caem toda vez que lembro dela.
Que ela seja tão feliz quanto me fez e que eu aprenda a deixar de amar algo que me fez bem.
Comentários
Postar um comentário