Contradição numa casca-de-noz
Em certa altura, todos nós nos sentimos um pouco estranhos, perdidos, nos perguntando o que foi que aconteceu ou onde foi que erramos. O que houve naquele momento que fez com que tudo ocorresse diferente do esperado? Será que realmente tínhamos o controle o tempo todo ou será que essa era só mais uma ilusão nossa para inferir coerência num mundo que, na verdade, não a possui, mas nos possui a seu bel prazer e coerente à nossa incoerência?
Em certa altura, todos nós somos desconhecidos a nós mesmos. Por mais que insistamos que as circunstâncias nos levam a fazer uma coisa ou outra - e que, por vezes, essas coisas venham em contradição à nossa moral -, em algum momento temos que admitir que somos frutos dessas mesmas circunstâncias e que quem somos não passa de um amontoado de opções bem ou mal feitas.
A ética pessoal existe à altura em que não contradigo aquilo que o mundo me proporcionou até então.
Mas sou pura contradição.
Em certa altura, todos nós nos sentimos inquilinos de nós mesmos. Estranhos à nossa vontade, perdidos em nossa contradição e nos perguntando o porquê de optarmos pelo que nos fere, humilha ou frustra - tanto quando as circunstâncias são ofertadas pelo mundo quanto quando nós mesmos as criamos. Se a vida for um filme, por vezes é um horror barato, um filme B de mau gosto em que o desespero de seus personagens serve para levantar o riso do público. Nem mesmo um sinal de piedade se achega ao caos.
Em certa altura, todos nós nos decepcionamos com as condições de subsistência que o universo nos dá e, ainda assim, seguimos em frente. Frustrados, mas esperançosos. Desesperançosos à medida que perdemos nossos sonhos ao longo do caminho, mas crentes de que algo bom deve acontecer em algum momento - afinal, não é possível que nossa experiência seja de todo ruim!
A esperança existe à medida em que não desistimos, por mais que deixemos de esperar algo diferente, e insistimos no mesmo por pura relutância.
Relutar em desistir é resistir, ainda que sem esperança alguma.
E assim sigo em contradição.
Em certa altura, todos nós nos perguntamos o que realmente importa, o que faz sentido e qual a dimensão da verdade. E, verdade seja dita, não obtemos resposta alguma, por mais que encontremos soluções provisórias para dilemas existenciais. É preciso saber lidar com não saber, ainda que não se saiba disso; e é preciso saber que não se saberá de muito mais ainda por vir.
Em certa altura, esperamos mais, mas recebemos menos. Vivemos menos em busca de uma vida maior, melhor, mais satisfatória e plena. Entregamos o que queremos pela certeza de que o teremos de volta num molde por nós reconhecido, mas acabamos sem nada e com grandes ilusões em troca. Mais desastroso ainda seria, ao invés disso, não ter sequer um capital vitalício para investimento. Sacrificar a própria vida para viver bem, ainda que signifique viver mal, também significa viver.
Não-viver esperando viver, é relutar em não-viver e resistir a não viver e, ainda que seja a apoteose da desilusão velada, não fere a ética do universo pessoal de cada um.
E por fim me torno em contradição numa casca-de-noz. Dexisto.
Comentários
Postar um comentário