A beleza de todas as coisas.

A vida demanda paciência - mais paciência do que temos, na verdade - e às vezes isso faz parecer que vamos precisar de todo tempo do mundo para aprender a conviver com nossos fracassos e frustrações,  além de todos os anseios e complicações, mas esse tempo todo é uma coisa que o mundo não nos dá. Pelo contrário: o tempo corre tão rápido que às vezes ficamos pra trás, não conseguimos alcançar nossas metas e recuperar o que ficou, o que queríamos e o que ainda queremos. Além disso, suspeitamos que, uma vez perdido nosso objeto de desejo, não mais recuperaremos a chance e necessidade que ele supria e sempre estaremos desejando-o um pouco mais. Nesses casos, mentir se torna uma opção.
Mentimos pra nós mesmos e nos protegemos da verdade, porque a verdade dói - e dor é uma coisa que não queremos. Há muita dor na vida pra optarmos espontaneamente por um pouco mais de sofrimento. Dizemos, então, que está tudo bem, que não há dor e que tudo segue de acordo com os planos. Sem mais delongas, sorrimos porque é fácil e vivemos com pressa para não ter que esperar muito até o tão almejado fim. Se é pra mentir, que não seja pra sempre. Que a infelicidade acabe logo e não tenhamos mais que desejar o inalcançável.
A tristeza se arrasta em tédio, num ciclo auto-sustentável de incoerência, pois queremos felicidade, mas essa felicidade tão banal não nos é suficiente. Há algo perdido para sempre em nós - e suspeitamos que é nossa essência. Raison d'etre. Vivemos em busca dos detalhes, porque é neles que Deus mora, e ignoramos as coisas simples e prazerosas, porque não há nada de prazeroso e satisfatório no que não nos diz respeito. Há apenas a meta e todas as coisas que se distanciam dela são pontos fora da curva. Não queremos pontos fora da curva tanto quanto não queremos dois pássaros voando e as mãos vazias. O simples se torna banal e tudo o que nos é habitual se torna tedioso. Somos tédio.
É preciso se lembrar, porém, que aquilo que está perdido não mais será encontrado. Haverá outras figuras semelhantes ocupando seu lugar, e isso deve bastar. O objetivo nunca precisou ser o essencial, mas a busca constante sempre foi a questão que gerava a animação do viver. De olhos fechados para todas as coisas, é impossível ver a beleza delas, então é fácil considerar que são irrelevantes diante daquilo que tanto se quer e nunca se terá. O sorriso - ainda que falso - irá fraquejar nesses momentos, mas não deve sumir: isso significa que você deixou de tentar, e deixar de tentar é inadmissível. Não ter sucesso é aceitável, pois faz parte do processo evolutivo, mas desistir é fracassar espontaneamente e isso não deve acontecer.
Quando a vida está difícil demais, deve-se abrir os olhos para o mundo e esquecer um pouco todas as coisas inalcançáveis que te cercam. Ainda que você deixe de buscar seus objetos perdidos por um instante, eles continuarão perdidos, então não há problema algum nisso. Assim, abandonando as complicações e observando as coisas simples da vida, é possível enxergar a beleza de todas as coisas. Deixando de existir em seus critérios absurdos e sendo sincero consigo mesmo. Ali se encontra a paciência para viver em paz um pouco mais. Dexisto.

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