Mausoléu das lembranças ruins.

Havia um resquício de memória perdido em algum lugar e, embora eu soubesse disso, era uma lembrança que eu não queria encontrar. Essas são as que mais temos, porque nos afligem. É fácil se livrar de bons momentos - basta vivê-los -, mas monstros perseguem, fantasmas assombram. E a vida é cheia de fantasmas.
Quantos erros é preciso cometer para se aprender a deixar de errar? Já perdi a conta de quantos eu cometi e quantos não pude evitar de cometer. É fácil pensar eventualmente que se cresceu, amadureceu e aprendeu a fazer a coisa certa, mas assim que se vive um pouco mais fica óbvio que não se aprendeu coisa alguma. Nunca estaremos preparados para todas as possibilidades que a vida proporciona. Muita gente acredita que sim, acho que é mais fácil mentir pra si mesmo e nunca admitir seus próprios erros. Cada um tem sua estratégia para se conformar com a insatisfação e fracasso: enquanto alguns mentem dessa forma, outros enterram os erros em arrependimento e culpa.
Eu tento fazer a segunda opção, mas me sinto n'A Noite dos Mortos Vivos, as coisas continuam voltando e voltando e voltando. Quando falo isso, não quero dizer que cometo sempre os mesmos erros, mas que não consigo esquecer os que cometi: quanto mais eu tento esquecer, mais eu lembro - porque é preciso lembrar de se esquecer as coisas para esquecê-las efetivamente, quão irônico isso pode ser? Poxa, ironia é a vida em si.
Acho que é por isso que a perfeição não existe. Quando se existe, as possibilidades de eventos ruins começam a surgir - e há muito mais destes do que de eventos bons - e estragar tudo parece ser uma escolha tão óbvia que escolhê-la se torna um ato compulsivo. Não dá pra evitar quando parece inevitável: para cada final feliz, existem dez tristes. Se tudo vai dar errado, que pelo menos eu escolha o final ruim que mais me agrada (ou que menos me desagrada). Pensar dessa forma é um erro, mas pensar em escolher um final ainda pior poderia ser mais desagradável; assim como tentar fazer a coisa certa e estragar tudo (aí é a decepção que te frustra). Vê como as opções ruins são mais abrangentes do que as boas?
Essa é a vida, com seus trâmites e tribulações. Chega a ser injusto, mas a vida não é justa. Se fosse justa, não seria irônica. E a maior ironia de todas foi que, para ser justa com todos, a vida não é justa com ninguém - o que me parece bastante justo. Dexisto.

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