O existencialismo é uma escassez de excessos.

As pessoas são atraídas aos excessos da mesma forma que mariposas pelas lâmpadas, mas isso os põe em miséria. Há uma busca incessante por um pouco mais de tudo devido a uma sensação de termos um pouco menos que nada, e quanto mais conquistamos, maior se tornam as dimensões percebidas do mundo, então surge uma noção de quão pequenos somos e precisamos de mais e mais e mais - porque tudo que conseguimos se mostra pequeno em relação ao leque de possibilidades então aberto.
Esse é um dos motivos de o individualismo, impulsionado ainda mais pelo capitalismo moderno, ter funcionado tão bem: ele permite excessos e pune com escassez. Se você faz em excesso, consegue em excesso e lhe é permitido ter em excesso. Se você não jogar, não tem nada e logo se vê em miséria. É uma visão que corrobora com a necessidade humana de acumular. Somos acumuladores naturais, a evolução nos fez aversivos ao pouco e ao regular. Somos problemáticos mesmo em nossos costumes usuais.
Também existe uma miséria emocional resultante desses excessos, um paradoxo evolutivo que resultou no individualismo e fluidez afetiva. Quando sentimos excesso de amor próprio, somos egoístas e não nos importamos com o outro. Por outro lado, o excesso de altruísmo gera sacrifícios que sabotam nossa preservação. O excesso de ambos nos põe em uma inocência arriscada, enquanto a ausência gera um ódio mortal. Somos o veneno que nos mata e destilamos a dose em nossas relações.
Nos importamos demais e nos preocupamos em igual tamanho com a possibilidade de não termos retorno nesse investimento emocional. Queremos o que oferecemos, mas não impomos condições para fazer coisa alguma e nem queremos que nos imponham qualquer demanda prévia. Somos escravos de gentilezas e gestos vazios, torcendo para que não sejamos os únicos a oferecer nossas almas para o outro.
Viver não significa nada, sendo o pouco o que temos, enquanto morrer significa uma coisa enorme, pois é a perda de tudo o que temos, e mesmo que seu significado seja escasso - mesmo a perda de algo tão pequeno significa um excesso de mundo se perdendo. Nossa existência se esvaindo, desde nossas possibilidades de ser e estar, até tudo o que fizemos ao mundo que pertencemos e agora nos esquecerá.
Abandonar a busca por sentido, então, significa desistir de uma vida recheada de excessos e significados, nos entregando à morte da alma e consequente esquecimento. Desistir aqui é se permitir provar que nunca existiu de verdade. Dexisto.

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