Vida artificial.

O mundo se abre diante de mim e se mostra muito maior do que eu posso aguentar, então estendo meus braços e agarro tudo o que posso - termino num abraço breve e solitário. Há muito mais coisas nessa vida do que podemos suportar, e há muito mais vida na dor do que na alegria - porque a dor permanece, enquanto todo regozijo é efêmero e logo se vai para dar lugar a um pouco mais de agonia. Mas, se não fosse assim, será que saberíamos apreciar apropriadamente os bons momentos que temos? Acredito que não. Só apreciamos a felicidade porque ela é breve e sempre nos falta. Se estivesse sempre aqui, seria banal - feito o ar.
Me faltam palavras pra explicar tudo o que sinto, e me falta alma pra sentir tudo o que quero. Todo o meu ser é pouco pra todas as expectativas que tenho, e todas as possibilidades que se abrem diante de mim são mais do que posso suportar ou imaginar. Não imagino novas cores da mesma forma que não posso conceber infinitas vidas inteiras, ponderando prós, contras e imparcialidades. Fico em cima do muro pra todas as opções e, sem querer, deixo passar milhões de momentos felizes e opções certeiras para uma vida inteira feliz. Sou cego para o que há de bom, mas vejo bem o que há de ruim. Vai ver sou mais seletivo com meu sofrimento.
Quando os olhos estão fechados a contragosto, tudo o que resta é uma oração a descansar nos lábios de quem sofre. Não é preciso fé e sequer esperança - ela vem como um último recurso de um ateu que se iludiu se achando um gigante. Não é a possibilidade de haver um Deus olhando por ele que o leva a esse recurso, mas a possibilidade de não haver mais nada a fazer que o faz seguir caminhos sem pensar. Correr primeiro, pensar depois. Entre a cruz e a espada, a única verdade é que o sabor da vida te empurra em direção à sobrevivência.
Se não houvesse sofrimento, haveria esperança de algo melhor? Se não houvesse medo, haveria coragem, fé, luta, glória ou alívio? Se não houvesse um bom motivo para nos levantarmos todos os dias, será que ainda faríamos isso? A vida segue automática, superficial, sem ponderações maiores ou questões profundas. Vivemos e fazemos tudo o que nos foi ensinado, mas não pensamos a respeito. Não estamos vivos realmente, apenas existimos. A vida é tédio, e o tédio requer um pouco de café pra empurrar o sono pra longe. Tomo outro gole. Dexisto.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Desincoerente, dexistente e indestinável

Dus temps seules.

Crônica de um vazio imensurável.