Novas dores.

Quando todos os cordeiros tiraram suas peles, revelaram-se lobos disfarçados e não havia cordeiro restante para devorar. Assim, passaram a devorar uns aos outros. O primeiro que caísse sucumbia aos outros e saciava a foma de preservação que rugia feroz em seus estômagos. O último que caiu estava faminto, pois não havia o que comer, e notou o quão sortudos foram os que não lutaram até o fim.
Quando todos os peixes choraram suas mágoas, ninguém notou porque não havia como distinguir suas lágrimas da água que sempre houvera ali. Era um lamento discreto e solitário. Todos se afogaram e o último que partiu decidiu fechar os olhos para não ver o que havia restado, mas não funcionou.
Quando todos os sóis cansaram de brilhar, decidiram se pôr. Mas onde quer que fossem, seu brilho era notado e, quanto mais fugiam para a escuridão, menos a encontravam. Tudo o que havia para eles era um holofote a contragosto. Aceitando seu destino então, brilharam intensamente por um último momento e ofuscaram tudo numa supernova.
Quanto todas flores cansaram de posar para a natureza, decidiram morrer. Todas se deitavam, mas o vento soprava elas de volta em pé. Cansadas da beleza, então, resolveram se despir para que ninguém mais as quisesse ver e em paz pudessem ficar. Soltaram suas pétalas a voar, que se tornaram borboletas, livres ao vento e seguindo rotas que as flores jamais poderiam cogitar seguir.
Quando a dor cansou de doer, decidiu se extinguir, mas todos ficaram felizes, imaginando que agora sentiam prazer: nunca imaginariam que a dor também se doeria ao doer! Regozijaram sua partida, assim como ela, mas continuaram sendo enquanto ela se fora. O prazer, então, também se cansou eventualmente. Mas à sua partida lamentaram e o obrigaram a voltar. Tornou-se uma nova dor.
Quando a vida cansou de viver, decidiu parar, mas estava acorrentada indefinidamente ao tempo que a obrigava a continuar. Fugas momentâneas não podiam evitar um viver longo e monótono. Decidiu, então, morrer - foi quando se tornou em morte. Mas a morte continuava monótona e presa ao tempo. Desistiu de tentar em seu cansaço por existir. Dexistiu. Dexisto.

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