Sonhos superficiais.

O sabor da calma se confunde com o da felicidade, mas as duas coisas não significam realmente a mesma coisa. Sentir-se calmo é entorpecer a alma e se permitir entrar em contato com todas as coisas, enquanto a felicidade é uma perturbação mental que te obriga a viver o momento com todas as suas forças, que te obriga a se sentir bem mesmo que tudo esteja mal. Não é errado se sentir bem - longe disso, é ótimo -, mas não é a mesma coisa que estar em paz.
A calma é um estado pleno que, de tão sutil, sequer se faz perceber. A felicidade, por outro lado, é viciante - mais do que qualquer substância psicoativa, ouso declarar. Só se altera psiquicamente quem quer ser feliz, e só quer ser feliz quem quer fugir de uma vida livre de felicidade. Dessa forma, fugir para o bem-estar é uma recaída constante que ninguém se preocupa em condenar. Quem quer ser feliz tem o direito - dizem -, mas quem só quer estar em paz deve ter algo de errado, pois o certo é ser feliz.
Há algo de curioso nas pessoas: elas se agarram fortemente às coisas que não podem ter (eu estou incluso nisso, claro). O problema é que a ausência é autossustentável: quando não se tem algo, se quer ter; mas quando se tem tudo, precisa-se criar uma nova ausência para se sentir. O sonho se sonha a si próprio para que possamos sonha-lo a seguir. Na esquina do desejo, se encontra a insatisfação. Percorremos longas estradas em busca de coisas que não precisamos e, ao consegui-las, nos damos por insatisfeitos porque não eram tão boas quanto queríamos - ou não eram as coisas certas. Queremos ir além então, e ir além não satisfaz porque há sempre algo melhor a se buscar; e há uma vida inteira para se sonhar maior.
Quem deseja, portanto, é infeliz. Mas que não deseja, por outro lado, também é - a diferença é que não tem mais esperança. Feliz mesmo é quem não sabe o que quer, este busca algo sem pretensão de encontrar, pois imagina que irá reconhecer seu desejo assim que esbarrar com ele, e não se cobra para perseguir ideais inalcançáveis, sonhos loucos e vidas sempre abaixo das expectativas. Isso não significa que sonhar é errado, só que é doloroso.
Deve-se ter em mente que o desejo sempre se esconde atrás de uma expectativa, nunca se mostrando em sua figura real. Apenas temos vislumbres do que queremos, mas mascaramos sonhos com propagandas palpáveis. Buscamos coisas que não nos satisfarão porque não sabemos realmente o que queremos então nunca nos satisfaremos com os sonhos que sonhamos. Quem não sabe o que quer, portanto, apenas reconhece isso. Há um sonho sem rosto, e isso é tudo o que ele precisa. Não há cobrança, não há felicidade na aproximação de uma expectativa que se aproxima de sua concretização. Há apenas a calma de quem não sabe o que quer. Nunca.
Será que sonhei que sonhava um sonho ou será que foi o sonho quem me sonhou? Perguntas ficam sem respostas, e contentar-se com o mistério não traz felicidade, mas calma - e calma é tudo o que eu preciso agora. Tudo o que precisamos sempre. Desisto de tentar entender a vida e buscar algo pra dar vazão à minha existência. Dexisto.

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