Antítese do vazio.

O silêncio rumina minha alma feito a paciência que consome o tédio. Lá fora, as pessoas se silenciaram e vestiram máscaras para encobrir seus verdadeiros sentimentos e opiniões, expondo então um fragmento do discurso alheio e geral. Aqui dentro eu me permito ser sincero comigo mesmo, mas não sei o quanto é sinceridade e o quanto é revolta, vontade de participar do mundo e se decepcionar, e então pensar o total oposto apenas por vingança.
A decepção deteriora meu ânimo feito chuva invadindo a janela esquecida aberta. Onde antes havia conforto, agora a vida chora uma ode para o tédio, resumindo-se ao nada e ao vazio que o representa. Onde agora há tédio, antes havia motivação e sentimentos e vontade de mudar o mundo, mas o mundo me mudou primeiro e agora eu estou à beira da estrada, esperando uma carona pra me levar de volta pro lugar em que outrora eu estivera, pois viver no vazio é o mesmo que não viver ao todo.
O vazio preenche todas as coisas e cores e torna o sono numa constante. Queria dormir por tempo o bastante para que a vida passasse e o tempo acabasse e então o final feliz chegasse e todos ficassem felizes pra sempre - pronto, sem mais preocupações. Queria acordar para todas as coisas que deixei de lado e que, por conta disso, deixei de ver quando estavam bem na minha frente, aguardando para me encher outra vez.
A corda é curta e, por causa disso, não dá nós - é só pra mim. Nós é conjunto, e eu + você não podemos compartilhar tristeza, pois a tristeza é algo muito pessoal e cada um sofre sozinho seu pesar. Queria poder dividir meu vazio com alguém, mas se eu mal tenho o suficiente para me satisfazer, como posso compartilha-lo com alguém? Se ainda que o tenha, não transbordo, como posso tentar te dar o que me é escasso, mas que, ainda assim, me enche completamente?
O escasso da vida é o tempo, que te deixa pra trás o tempo inteiro. Não é possível ter tempo o bastante para se fazer tudo o que se quer, mas constantemente temos tempo demais para viver e pressa para preenchê-los com tarefas que não temos tempo de cumprir totalmente. Da maior parte dessas coisas, devemos desistir. Da pequena porção que resta, devemos permitir que existam livres de nós. Aproveitaremos tudo paralelamente, para não ficarmos cheios de coisa nenhuma e não termos nada de muitas coisas. Tudo o que eu tenho por ora é tempo, e dele dexisto.

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