Epítome do real.
As pessoas discorrem muito sobre caráter, mas isso é uma questão de valor. Não o quanto vale o comportamento de uma pessoa para a outra, mas o quanto você valoriza cada coisa e age a partir disso. Então não é pela ação que você constrói seu caráter - essa é a sua identidade -, mas através dos comportamentos que demonstram o valor que você dá a cada coisa no mundo - seus valores para o mundo. E é assim que deveria ser.
As pessoas discorrem muito sobre respeito, mas isso é uma questão de limite. Eu te respeito na medida que quero nos distanciar ou aproximar, ou seja, nos limites que imponho para a nossa relação. Quem muito exige respeito esquece que isso não altera o que pensam sobre si, apenas impõe um limite do quanto pode ser demonstrado frente a frente. O valor estabelecido para o outro continua igual e é assim que deveria ser.
As pessoas discorrem muito sobre a verdade, mas isso é uma questão de perspectiva. Eu limito seu acesso às informações disponíveis toda vez que te falo algo, tornando aquela visão a única que você pode ter e, portanto, torno qualquer coisa em verdade. A sua verdade. O real pode ser outra coisa, mas isso não importa: sua realidade foi formada e valores estipulados com base em tudo que você sabe e experiencia. A verdade, então, se torna o limite disponível no nosso mundo - e onde está o respeito num mundo cuja visão é incerta e limitada aos fatos que nos permitem ver? Estipulamos valores com base em ideias errôneas e sequer nos damos contas, mas tudo isso é verdade para nós. A verdade é frágil e varia de acordo com o lugar em que é aceita, nunca ao real - mas é assim que deveria ser.
As pessoas discorrem muito sobre honra, mas isso é uma questão de ressentimento. Quando não há culpa, você se sente honrado; mas quando há culpa, precisa que os outros te vejam bem para que não haja pesar. O oposto direto do ressentimento é o orgulho, e a honra é a manutenção desse sentimento mesmo em momentos em que a moral se põe em jogo. Crimes bem intencionados são dignos de honra, dizem, então não se deve remoer. A justiça é uma roleta russa em que o primeiro que cai é definido como perdedor e mau - todo resto deve ser considerado como digno de nota, e não é assim que deveria ser.
As pessoas discorrem muito sobre dignidade, mas isso é uma questão de valor. Diferente do caráter, que se dá pelo comportamento em detrimento do valor que se dá às coisas; a dignidade se resume ao valor atribuído a quem não possui mais orgulho: os caídos e derrotados. Quando nada mais resta para se gabar ou lutar, se houver um pingo de humanidade remanescente, haverá então a dignidade, e é assim que deveria ser.
As pessoas discorrem muito sobre a vida, mas isso é uma questão de medo. Só quer viver desesperadamente quem tem medo que algo aconteça - algo que não se assume merecedor, principalmente. Seja desgosto ou dor, não importa. A negação se desfaz perante a angústia. Quem vive com medo tem medo de viver, mas, quem tem medo de morrer, na realidade teme a vida que viveu. É a honra mal imposta, o caráter duvidoso e o desrespeito alheio, corrompendo o mundo e tudo o que um dia se considerou real. A única verdade conhecida aqui é que uma vida inteira fugindo da verdade não pode impedir a única verdade absoluta: tudo acaba. Tudo o que se conhece e vive, tudo o que se soube e um dia conheceu, e é assim que tem que ser.
Quando nada mais houver e te impedir de existir apropriadamente, então, a própria verdade irá te libertar. A resistência chega ao fim e a liberdade canta ao sabor do desconhecido. Basta esperar e desistir de resistir a si próprio para existir de fato. Dexisto.
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