Infinitivo da ausência.
A vida é uma produção constante de nostalgia. Para aquele que vive, não há meio termo: ou você se sente feliz e aproveita sua vida ao máximo, criando momentos para se recordar posteriormente com uma saudade gostosa de se sentir; ou você se sente vazio por dentro e resume sua existência ao tédio, ansiando por tempos que passaram e você sequer percebeu o quanto era bons ou, pior ainda, sente saudade de coisas que sequer aconteceram. De toda forma, a vida se resume à ausência e produção constante, para se ausentar novamente depois. Por isso a saudade de coisas que não aconteceram é a pior coisa possível: você exclui suas possibilidades e se ausenta em seu presente, tornando-se incapaz de viver adequadamente, produzindo os momentos que tanto ansiava.
A pior saudade que tem é das coisas que nunca mais vão acontecer, porque essas doem. Em especial aquelas saudades de coisas que nunca mais teremos, mas ainda sentimos necessitar tanto - uma ausência que grita em dor. A vida consiste numa produção de nostalgias exatamente para que possamos garantir que não nos esbarremos com uma situação dessas. Repetir as coisas que amamos com as pessoas que amamos para não nos arrependermos de nunca mais podermos fazer essas mesmas coisas. Coisas bobas, mas que são essenciais em nossas vidas - até mesmo porque o essencial não se difere por questão de importância conceitual, mas de valor emocional.
A saudade às vezes é tão forte que nos faz repetir até mesmo os velhos erros, aqueles que julgamos nunca mais cometer, mas falhamos descaradamente. Promessas que quebramos só para podermos sentir culpa e fazer a presença da pessoa a quem prometemos ficar um pouco mais forte em nossas vidas. Saudade do que não se pode ter é a pior coisa possível, porque a vida é longa e te obriga a sofrer a ausência por tempo demais.
A ausência, independente da intensidade e impacto, sempre gera um luto. O processo de lutar contra o vazio que fica, sentindo-se desamparado pelo universo que um dia lhe cedeu a vida apenas para tirar o pouco dela que você depositou em outrem. Porque todas as pessoas que conhecemos e amamos levam um pouco de nós, vivemos um pouco nas lembranças que eles nutrem da gente. Somos bons quando a nostalgia que fica é prazerosa, mas somos maus quando a lembrança que fica os enche de ira e decepção. Na ausência, isso muda um pouco: somos bons quando a nostalgia dói e só ressentimento fica. Ressentimento sempre fica, pelo simples fato do que não poderemos mais ter ou pela culpa que não poderemos mais jogar na pessoa. Assim, só nos resta quebrar promessas e chorar pelo leite derramado.
A dor costuma ser bela quando se transforma em poesia, torna-se inclusiva válida - demonstra o valor daquilo que te dói. Há algo mais belo do que remoer-se por algo que lhe vale a vida? Não creio. Mas no luto isso se torna um vazio existencial, algo de valor que lhe foi tirado, como se o universo tivesse lhe roubado de forma indiscreta, para que todos possam ouvi-lo bem: vejam, eu posso tirar-lhes o mundo quando eu bem quiser! E pode. Com isso, só nos resta deixar o tempo passar e esperar pelo melhor. Se tiver algo de melhor por vir, o que é improvável. A ausência é um verbo que se conjuga no infinitivo, porque é um processo constante e que não se esgota jamais, porque não há ausência perfeita, apenas plena.
O tempo é curioso, ele corre de forma tão rápida que sequer notamos sua presença, mas, assim que passa, olhamos pra trás e parece que faz tempo tempo que algo aconteceu. Ele é relativo ao prazer. Quanto maior o prazer, menor o tempo se torna. Por isso na dor o tempo parece estagnado. Ele para e te deixa sofrer eternidades num ínfimo segundo. Ele te dá tempo o suficiente para se despedaçar e desistir de tudo, desistir de existir. Dexisto.
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