Não entre em pânico.

O primeiro sinal de que tudo vai mal é o silêncio. Quando você deixa de perceber o mundo, é porque seu mundo está prestes a desmoronar - e, acredite, ele vai. Ao que o universo se cala, o coração bate e nos ouvidos é possível ouvir as batidas surdas e incessantes, cada vez mais rápidas, furiosas e constantes. A seguir, o corpo entorpece e um arrepio percorre a espinha, acompanhado por um frio que em nada combina com o clima que você sentia anteriormente. Os braços frios estremecem e seus ombros se encolhem automaticamente, buscando proteção no calor que o corpo emana, embora mal saibam que este se encontra igualmente gelado.
Terminado o frio na espinha, o bater das asas das borboletas do estômago provocam furacões nos territórios viscerais. O estômago parece vazio, ainda que você tenha se alimentado há pouco, e a dor aperta fazendo um nó aparecer repentinamente na garganta, assim como um desconforto te obrigar a agarrar o umbigo e tentar arranca-lo com as mãos suadas. Os braços não têm força, mas se propõem a apertar a barriga com tudo o que têm - ou seja, nada. As pernas fraquejam igualmente, buscando apoio nos joelhos que, por sua vez, vão logo de encontro ao chão. Ou isso ou despencar com força, porque não há qualquer chance de se manter em pé agora: a gravidade parece ter aumentado de uma hora pra outra, então você precisa se dobrar aos céus.
Não obstante o sangue por trás dos ouvidos, agora seu peito parece prestes a explodir, com o coração batendo alto e forte, perseguido por sua impaciência. Calma, alma - não tem calma. As batidas parecem ecoar para o resto do mundo e se tornam o foco de toda sua atenção. O medo desponta e, por mais que tente, não há como fugir uma vez que ele esteja aqui. Respirar é uma luta quando o ar foge de você. Você sufoca, embora sinta os pulmões se alargarem - mas nunca o bastante. Sua cabeça lateja lentamente a pressão parece querer esmaga-la. A voz desaparece, dando lugar ao desespero. Não há qualquer forma de se expressar, então as mãos bobas espanam o ar em busca de salvação, mas o ar não vem.
Seu corpo, dormente, parece não ser mais seu. Não há qualquer domínio ali. Seus braços formigam e as pernas dormem - se você estava no chão intencionalmente antes, agora é por falta de opção. Seus pés desapareceram, não há mais como fugir. A cabeça latejante agora parece estranha, como se fosse um corpo alheio que grudou ao seu. Você sabe que é sua, mas só porque já a viu ali antes. Quanto mais a cabeça se desloca do corpo, mais a consciência se esvai. O mundo sempre foi negro assim ou alguém apagou o sol? Se o dia morreu, alguém precisa avisar à lua pra subir e tomar o seu lugar de direito no teto do céu. Os pulmões queimam e a garganta é pura dor, o nó agora é impossível de se desatar e parece puxar o corpo pra longe da cabeça, que já não te pertence.
Um grito desesperado ecoa no ar e, após alguns instantes, irá perceber que este lhe pertence. Quando gritou? Ainda havia alguma voz restando? Apesar disso, é ininteligível. É preciso reconhecer o esforço do desesperado, mas sua tentativa é tão vã quanto sua vida: tudo acaba de repente. A solidão o consome de dentro pra fora, aumentando junto à dor conforme adentra o sono. Seu último pensamento não é sobre dor e sequer salvação, mas acerca de todas as coisas que já viu e não imaginou que não tornaria a ver. Não há assuntos pendentes, apenas saudades mal resolvidas. A vida não passa diante dos olhos, mas os olhos encontram a vida em tudo o que os toca - é tão belo quanto é triste, e isso só ocorre porque a dor de perder tudo despertou o valor dessas mesmas coisas.
A cabeça toca o chão num último baque, cansada de lutar e não mais pertencer a lugar nenhum. As mãos se fecham contra a vontade, representando o último fio de controle que se rompe. Entreaberta a boca não transita mais o ar, apenas serve como morada para ele: um último suspiro que cospe a alma embebida em esperança.
Quando a consciência retorna, o mundo acorda e você ouve o som da sua voz arfante a roubar todo ar abandonado ao seu redor. É tudo seu. O corpo dói conforme recobra o controle, assim como o desespero se ergue na luta por ar. Você tenta e tenta e finalmente consegue se agarrar à vida, ou será que a vida se agarrou a você mais uma vez? Talvez não haja diferença.
As cores voltam e o mundo grita em seus ouvidos, te enchendo de dor. Sobressaltado, se ergue e segue a vida, pois outro dia vem e mais uma queda o aguarda. Não há tempo pra parar, já que a vida não espera. Mesmo cambaleante, é preciso dar alguns passos em qualquer direção que seja, só pra ter certeza de que ainda está vivo. O pânico irá embora de uma vez quando você desistir de lutar pela vida, então se renda e permita que a calma da derrota te console. Vai ficar tudo bem depois disso. Apenas respire fundo. (Não entre em pânico, é só um texto). De novo. (Dessa vez). De novo. Dexisto.

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