Caricatura do desastre.

Pessoas são rascunhos de uma vida inteira de possibilidades e, não importa o que aconteça, continuam estando condenados a repetir apenas aquilo que lhes foi imposto, proposto e disposto. Enquanto a disponibilidade é uma sentença inicial para o crime de existir, a liberdade é o que resulta de cada revisão dessa vida vivida: Por ter escolhido X durante sua sentença, aumentaremos ela para a disponibilidade de Y nas mesmas ocasiões! Agora vá, seja livre!
Ser livre não é tão favorável quanto fazem parecer, pois envolve responsabilidade. O peso que se carrega por cada decisão e erro. Aquele que se prende a alguma coisa, ao menos possuirá um álibi para seus comportamentos inadequados. As correntes são um alívio quando se percebe a cobrança que o mundo faz a quem controla os títeres. E, não importa o que aconteça, vai haver sempre mais cobrança e insatisfação, nunca reconhecimento. A vida não se trata sobre sucesso, mas perdas, lutos, frustrações afins.
Talvez interpretem semblantes cansados como meros frutos de esforço, esgotamentos bem-vindos e cheios de honra - mas não há nada grande no cansaço, muito pelo contrário: ele deveria refletir a falta de valor. Muito se exige de quem pouco se considera, pois é dono de um valor tão ínfimo que é preciso usufruir ao máximo desse sujeito para que faça valer o esforço de coexistir com ele. O preço do ar é caro, temos que compensar cada metro quadrado ocupado. Parece papo ideológico, mas não é: se houvesse valor no cidadão comum, ninguém realmente os exploraria ao máximo. Não há valor, portanto, enquanto sujeito, mas como mão de obra - um instrumento a ser utilizado ao máximo para que, quando não mais puder ser explorado, seu descarte possa ser feito com consciência limpa. E o descarte é inevitável.
Competir é saudável até o ponto em que se torna questão de sobrevivência. Na sociedade, é preciso correr, pois os prêmios se esgotam já no segundo lugar. O sorriso é apenas outra ferramenta de manipulação: te faço acreditar que possui valor e você repete o gesto para tentar realmente acreditar nisso. São gestos vazios, mais utilitários do que com qualquer significado afetivo possível, visados apenas para a continuidade da rotina - e a rotina mata.
Sempre que se olhar no espelho e ver o sorriso diminuindo, ainda que não em expressão, mas em prazer, saiba que está se entregando ao desastre. Aquele não é mais o rosto da pessoa que você conhece, mas de alguém que querem que você veja. Um sujeito desprovido de história, apenas com força de trabalho a vender e poucas reclamações despontando dos lábios. O sorriso é praxe. Quando você se pergunta se vai haver tempo disponível para viver algo prazeroso e ser feliz, saiba que você já se afundou no desastre. Seu rosto não passa de uma caricatura mal feita do cidadão comum, sem nome ou valor real.
Desastroso seria acreditar que seria aceito no mundo sem passar por isso também. O valor não é imposto apenas por sermos humanos ou estarmos vivos, mas pela ação que promovemos ao nosso redor, toda construção do mundo que podemos proporcionar. Assim, ou fazemos algo em prol do desenvolvimento global, ou estamos fadados à sarjeta. Não há espaço para quem não contribui, porque não são humanos, são escória. O sorriso se desfaz porque nem valor utilitarista resta. É triste pensar que outrora moraram sentimentos ali, saber que a esperança pode se deteriorar até se tornar num resquício de lamento - pois nem lamento existe mais ali.
O rosto cansado na sarjeta reflete a apoteose da violência a nós imposta. Somos todos protótipos de miséria, apenas fugindo ou retardando o inevitável. Abuso consentido ou exclusão total - entre as escolhas, não é muito difícil saber qual é mais prejudicial. Enquanto protótipos, carregamos uma amostra da violência sofrida através do cansaço e tédio, e descarregamos um pouco de volta na sociedade em forma de ódio e insatisfação. Nos sentimos frustrados com quem não é violentado em igual intensidade e ficamos enraivecidos com os violadores do caráter. É natural se sentir tocado por todo mal que vem do mundo, mas é igualmente natural oferecer mal em retorno. Olhamos por tempo demais para o abismo - agora nós mesmos nos tornamos nele.
Na vida líquida, porém, esse tipo de trâmite é recorrente e se torna banal. Mil vezes ao dia sofremos algo e mil vezes revidamos. Não é mais questão de sensibilidade se sentir violado, mas é questão de resiliência não abusar do outro. Num mundo em que todos ferem todos, aquele que abaixa as armas e se torna um mártir é visto como uma figura estranha, deslocada do resto. Mas talvez seja bom se diferenciar de todo o resto quando tudo o que nos mostram são rastros de maldade. Muito melhor sofrer e se tornar numa caricatura do desastre - assim, ao menos se torna o fim da linha de uma série de ataques.
Quando a existência fere e a dor te obriga a ferir os outros, a própria ação de não ferir se torna numa resistência direta à vida. Me recuso a te fazer viver a dor da minha existência, porque ela não é sua, então paro a existência em mim. Mas, se a ação é o meio pelo qual a essência se faz real, sem refletir sua existência nos outros, você deixa de existir. Deixa de ser sentido por aí e passa a se tornar real por si só, não através dos outros. Nadando contra a correnteza, passa a ser um peixe solitário, mas evita a queda livre que a cachoeira traz - e que pode ser pior do que se recusar a participar da vida em grupo. Desistir de si é uma forma de resistir ao mal e permitir que o outro se torne quem é por conta própria, sem sofrer suas dores e influências no processo, quebrando o eterno retorno das dores d'alma. Se quer fazer algum bem ao mundo, portanto, desista de promover o mal e deixe as pessoas serem quem são. Seja quem você é. Deixe-me ser quem eu realmente sou. Dexisto.

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