Devaneios cotidianos.
Na falta das palavras certas, falo as erradas e torço para que algumas delas funcionem igualmente bem. Na falta de sentido, me permito um momento de insanidade, senão suspeito que enlouqueço ao tentar me encaixar em vidas que não me dizem respeito. Não me esforço para ser mais do que sou, assim como não sou o que me esforço para ser - existe um paradoxo aqui, mas isso não é importante, o que realmente importa é o quanto arrisco ao viver.
Na falta de versos, sigo em prosa e arrisco estruturas que não rimam e sequer se encaixam de fato. Na falta de organização, tento fazer parecer que a bagunça sempre foi meu objetivo, porque assim sempre cumpro minha meta de ordenar coerentemente o caos. Não vejo problema em improvisar de última hora, porque às vezes é o elemento surpresa do cotidiano que te dá inspiração para as melhores coisas, as maiores loucuras e as mais saudosas histórias.
Na falta de calma, arrisco a sobriedade e a razão, embebido num pessimismo que me faz buscar armadilhas em tudo aquilo que parece perfeito - assim espero da vida: imperfeição. Na falta da razão, sonho acordado e me permito um pouco de alegria, aproveitando o que há na vida enquanto ainda tenho um pouco de tempo pra aproveitar. Aos trancos sou tão feliz quanto posso, depois me recolho em minha cabeça e revivo memórias de forma saudosa e me deixo em paz.
Suspiro cansado de uma vida pacífica, consumido pelo tédio que a correria traz. Desacelerar um pouco às vezes é bom, mas viver em lentidão é desesperador. Deve haver um meio termo saudável, mas não sei onde fica e nem se sou capaz de encontrar. Por via das dúvidas, me engano e sigo louco, recordando coisas felizes para desconfiar de todo vislumbre de uma possível felicidade que se faz presente. É preciso suspeitar das coisas afinal - é tão fácil se enganar e deprimir que chega a ser audacioso até mesmo se arriscar a ser feliz.
A felicidade é uma neurose, pois só um louco encontra motivos para ser feliz. Tão efêmero é o riso quanto breve é a vida, e está tudo bem. Sonhar de olhos abertos é a única forma de não enlouquecer realmente, mas suspeitar estar num sonho e conferir incessantemente é como nos fazemos ter certeza de que a coisa é real. É preciso desistir de uma vida sã para se sonhar acordado e ser feliz, assim como é preciso desistir de buscar a felicidade para se viver feliz. A vida é feita de desistências. Dexisto.
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