Campo gravitacional do determinismo.

A maioria das coisas que fazemos não tem sentido explícito. Não importa o quanto tentemos compreender e racionalizar e explicar, em nosso âmago há um significado todo especial ao qual nunca teremos acesso. O valor que realmente damos às coisas, o caráter que demonstramos e os sentimentos que desconhecemos, mas que nos conhecem tão bem. Temos afeição pelo desconhecido, porque tudo o que nos define nos foge à consciência. Cada lei que seguimos e prazer que buscamos. Há algo subliminar na nossa razão, um motivo profundo pelo qual necessitamos lógica quando esta não faz o menor sentido: controle do inevitável.
Se o essencial é invisível aos olhos, tudo o que sentimos inevitável é de suma importância em nossas vidas. Cada movimento que pensamos ordenar é, na verdade, uma órbita forçada ao redor de um campo gravitacional que nos prende à existência. Uma existência pré-programada em funções, embora não em rota. É possível seguir uma rota própria, mas nunca fugir de nossa natureza intrínseca. Não que seja uma natureza comum, apenas uma configuração para todas as possibilidades que um dia teremos. O campo gravitacional do determinismo.
Somos livres em nossos olhos cerrados, podendo fazer escolhas cegas em nossa pequena zona de conforto. Não há nada de belo nessa restrição extrema, mas não é assim tão feio quanto parece: ter possibilidades limitadas significa ter sempre à frente as opções possíveis, não precisando se preocupar com coisas inalcançáveis. A maioria dos problemas existenciais vem da vontade de cumprir uma demanda impossível no momento. A liberdade não está em escolher o impossível, mas de utilizar as rotas disponíveis para encontrar um novo caminho para lá. Não é como se fôssemos eternamente presos ao pequeno mundo no qual nascemos, mas ele é o ambiente a nós determinado para começarmos a trabalhar nossas vidas antes de chegar noutro lugar melhor. Como peixes que percorrem o rio até chegar no mar.
Absurdos foram feitos para serem ignorados, pois não há sentido em ponderar acerca de coisas impossíveis de se resolver, provar e fazer. É preciso torna-los plausíveis primeiro. Desistir dos desejos absurdos, portanto, é uma forma de viver na realidade atual, no aqui e agora, utilizando de todas as possibilidades disponíveis para se ter um futuro mais amplo, algo a ser verdadeiramente apreciado. É preciso desistir de tentativas vãs de adiantar o que não está aqui - e que talvez nunca esteja. É preciso desistir de lutar contra si mesmo e deixar sua própria natureza guiar seus pés um pouco de vez em quando - ela saberá forjar seu próprio caminho. É preciso desistir de tudo o que não está aqui agora para existir de maneira apropriada um dia. Dexisto.

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