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Sentir o nada é a mesma coisa que não sentir nada?

Eu olhei para o nada, e nada me olhou de volta. Se a solidão é caça, hoje é dia do caçador. Seus olhos me dizem o que sua boca não, ao passo em que o que suas palavras contam, seus olhos desmentem. Se me amasse de verdade, me privaria desse amor. Só há verdade na dor, pois dói aquilo que te custa sentir. No prazer, apenas há a ilusão que exponencia o sofrimento por vir. E, se amor é fogo que arde sem doer, o que me oferece é um incêndio - e eu queimo, mas não é bom. Só é bom quando for real - e, quando assim, irá doer e nada de bom irei eu ver. Eu calei minha voz, mas o silêncio falou mais alto do que qualquer coisa que eu pudesse ter dito. Não havia palavras para descrever o que eu sentia, pois nem mesmo um sentimento era. Suspeito que ninguém jamais se sentiu assim ou irá de novo - e como poderia eu culpar alguém por isso? É impossível culpar alguém por algo que não se sabe sequer como exprimir, mas todos nós tentamos. Fazemos o possível, mas nada expressa ao certo aquilo que mesm...

Confissões de um fracasso.

Queria ser do tipo que vê sentido nas coisas que faz, mas só vejo sentido nas coisas que deixo de fazer. Não me gratifico por aquilo que é natural, só me cobro por não cumprir o que também devia ser. Corro dias pensando num futuro improvável, mas estagno em possibilidades em que podia correr, ocasionando tempos igualmente importantes, tempos estes que acabo por perder. Queria ser do tipo que escreve para toda essa gente que busca um sentido pro seu viver, mas não consigo fazer grandes proezas, só escrevo sobre aquilo que julgo conhecer. Um pouco de mim e um pouco do outro, mas a maior parte de mim acredita ser uma situação singular. Que sentido teria, então, escrever qualquer coisa, se ninguém mais pudesse se por no lugar? Queria ser do tipo que atrai multidões, mas na maior parte do tempo o mundo foge de mim. Tento remediar e sorrir um bocado, e abro o rosnado feroz de uma besta gentil. Se alguém pudesse ver o que há por trás dos meus olhos, compreenderia então uma intenção tão s...

Anagramas de saudades e o motor da vida.

Saudades tenho da infância, com gosto de ceias e sorrisos sem graça, gratuitos e fortuitos. Onde não há expectativas demais ou visões do mundo além, só o aqui e agora, planos que, no mais longe, são fazem para depois do jantar. O amanhã é uma surpresa e o ontem foi uma experiência, o passado e o futuro só existem na cabeça como conceitos longínquos e abstratos, que pouco sentido fazem senão orientar a direção que o tempo corre. Saudades tenho de fotos amareladas e programações infantis na televisão, quando a nostalgia te mostra que no presente não há tempo pra matar, só planejamento e imagem própria a construir. Houve dia em que não importava o que você queria ser, bastava ser e como você fazia isso é que era importante. Inversões de valores convertem moedas em quantidades absurdas de dinheiro, assim como a bolsa de valores do tempo humano transformam o valor de um dia adulto em algo completamente diferente de um dia infantil. Não há mais tempo de ser criança, todos os dias são adul...

Tempos modernos.

Em tempos certos, todas as escolhas são propícias e levam a consequências saudáveis. Em tempos errados, é preciso fazer com que as coisas fiquem certas, escolhendo aquilo que levará a uma nova onda de tempos certos. Na maior parte da vida, vivemos tempos errados achando que são certos, e em alguns tempos certos acreditamos estar em tempos errados, pacatos e impróprios. Em tempos modernos, todos os tempos são certos e errados simultaneamente. Há sempre uma possibilidade otimista porvir, da mesma forma que tudo se desmancha em caos. Não que o caos seja ruim, só é bagunçado, daí a confusão. Em tempos confusos, todo caminho é incerto e o futuro se faz nublado, e é preciso acender a luz do farol da razão para se poder navegar direito pelas ondas certas de um mar revolto. Em tempos outros, há tempos buscávamos tempo pra fazer o que há muito tempo queríamos fazer, mas não encontrávamos tempo em meio ao pouco tempo que tínhamos, e deixávamos tudo para a hora certa. A hora é uma porção do ...

Impossibilidades circunstanciais.

Seria impossível não se esquecer dos sonhos caso não houvesse a decepção. Sentimos muito pelas dificuldades, mas sentimos muita vontade de supera-las pelo mesmo motivo. Sobretudo, quando o cotidiano banaliza o tédio. Ao que a falta de sentido se torna um fator constante, é preciso mudar - e o primeiro passo da mudança é o sonho. Sonhamos desejos pelas faltas impossíveis de serem sanadas, e então mudamos para que a perspectiva também se altere. Seria impossível não se esquecer da pressa caso não houvesse também o tempo. Escapam de nossos dedos os segundos e correm rios que logo se tornam horas, dias, meses e anos. Quando se percebe, uma vida ficou pra trás. Sobretudo aos domingos, onde a vida parece estagnar um tanto. Às vezes, todos os dias parecem domingos, e é aí que mais sentimos o tempo correr e nos deixar pra trás, e nos sentimos impelidos a recuperar o tempo perdido, mas, poxa, é domingo ! Seria impossível não se esquecer que tentativa e erro são processos constantes, e entã...

Irrisório escapista.

Quando o mundo é denso, o peso sobre os ombros parece te puxar pra trás e firmar em sua cabeça palavras e mais palavras cruéis - fragmentos de sentenças não finalizadas que você irá completar da pior maneira possível. Os olhos pesam e a garganta fecha, e isso é tudo o que pode ser feito nesse instante, pois todo o resto é impossível ou inadequado. Se ausentar de tudo é um desejo. Quando a memória é frágil, toda felicidade facilmente se esvai e apenas arrependimentos restam, lembrando de tudo o que devia ser feito e de tudo o que devia ter sido evitado - o que, agora, não faz realmente diferença, mas a insistência se faz cruel e é para isso que ela está ali. A tristeza bate forte e uma vida mal vivida passa a ser o equivalente a um pedido cósmico de desculpa. Ali os sonhos morrem. Quando ficar acordado não traz prazer e dormir não traz sonhos, tanto faz o que acontece. O melhor é não-. Não é preciso concluir a oração, pois orações não funcionam mais. Qualquer coisa que pudesse ser ...

O sol cruel.

O vento sopra por dividir, mas o sol ilumina porque é cruel. Cinde a tempestade a olhos vistos uma sombra que oculta não pode estar e nem deve. Poderia outrora a chuva arrastar em seu pesar nuvens que cindem e ao oculto levam a realidade, mas apenas de tristeza não viveria o tempo - está ali para toda estação e em suas mais variadas formas. Bem ou mal, apenas o é. A fotografia guarda o que a memória não pode, pois detalhes te levam à revelação - e a verdade é melhor permanecer oculta, caso contrário uma lembrança pode perder sua magnificência. Poderia no desfoque haver um gesto amigo do presente ao futuro eu, que do passado mal recorda e bem não o quer fazer, mas o presente é egoísta é quer retornar na forma do impossível que não mais é. O belo há para que o feio não seja visto, em sua beleza ajuda àquele que não quer ser visto, sendo paradoxal o fato de que o feio apenas o é pois existe um mais belo ao que se comparar. Há beleza em todas as coisas, mas elas reduzem conforme o rea...

Tudo aquilo que nitidamente não é.

Relações humanas são complicadas, pois envolvem não apenas demandas e conflitos, como também expectativas advindas do outro e que formaram esse entrelaçamento social a princípio. Muitas vezes nos pegamos pensando sobre nosso lugar no mundo, assim como o sentido da nossa existência - donde viemos e pra onde vamos - , mas quando é que paramos para pensar no lugar do outro no mundo? Mais que isso, para haver a presença dele na nossa vida, completando algum furo presente na nossa existência, qual o lugar que ele ocupa no nosso  mundo? Pois tudo o que se faz presente em nossas vidas é algo de suma importância, ainda que seja destrutivo, algo essencial que só permitimos que continue presente devido à alta estima que damos ao seu papel em nossa sobrevivência. O outro, portanto, se torna naquilo que nós não somos - daí a importância de mantê-lo em nossas vidas. Completudes pertencem à fragilidade existencial, pois tudo aquilo que está completo pode ser despedaçado, enquanto o que se enc...

A angústia de Dostoiévski.

A virtuosidade é uma doença cujo maior sintoma é a ilusão do bem-estar. Estar bem é se sentir bem ou simplesmente não se sentir mal? É uma questão que aparenta ser ambígua, mas apenas o é caso sua visão de mundo seja monocromática, onde não ser algo significa ser seu extremo oposto - e as coisas não são assim. Entre o preto e o branco existem tons, e não apenas de cinza, como aqueles presentes em cada elemento que compõe o espectro de cores. A vida é diversa assim e reduzir seu estado a apenas duas possibilidades é simplório e cego, de forma que não te permite enxergar as coisas como de fato são. Equilíbrio significa impedir a manutenção de estados ruins e aproveitar os estados bons para poder retornar à neutralidade, afinal, uma sobrecarga de prazer precisa ser consumida logo, uma vez que este é efêmero. Daí a existência de tantas formas de prazer, igualmente curtas e singulares; enquanto os estados de angústia se prolongam por quanto tempo você permitir que fiquem. Dizem que as pe...

O valor de se pôr à parte.

O mundo que se tem nem sempre é o mundo  que se quer, mas o mundo que se quer sempre está inserido no mundo que se tem, pois é este que dá a base para reconhecer na ausência os desejos que é preciso realizar. Mas há limites, como todo resto, e, portanto, o mundo é limitado por aquilo que nele está contido. Desejar mais do que se pode ter está na moda e, caso não fosse assim, de nenhuma outra forma poderia ser. Se a busca não fosse sustentada pelos impossíveis que nos cercam, então nada faríamos para torna-los possíveis, plausíveis, concretos em nosso limitado alcance. Se não quiséssemos o que não podemos ter, nenhum avanço haveria e nada faríamos senão flertar com a mansidão do dia. Uma vida pacata se faz na ausência da cobiça, embora não num vazio completo. O vazio da existência te permite se preencher com o que quer que haja por aí, abstraindo significado de qualquer coisa que tiver e puder - o contrário do vazio tedioso de quando o mundo não mais te oferece prazer, e tudo te ...