Sentir o nada é a mesma coisa que não sentir nada?
Eu olhei para o nada, e nada me olhou de volta. Se a solidão é caça, hoje é dia do caçador. Seus olhos me dizem o que sua boca não, ao passo em que o que suas palavras contam, seus olhos desmentem. Se me amasse de verdade, me privaria desse amor. Só há verdade na dor, pois dói aquilo que te custa sentir. No prazer, apenas há a ilusão que exponencia o sofrimento por vir. E, se amor é fogo que arde sem doer, o que me oferece é um incêndio - e eu queimo, mas não é bom. Só é bom quando for real - e, quando assim, irá doer e nada de bom irei eu ver.
Eu calei minha voz, mas o silêncio falou mais alto do que qualquer coisa que eu pudesse ter dito. Não havia palavras para descrever o que eu sentia, pois nem mesmo um sentimento era. Suspeito que ninguém jamais se sentiu assim ou irá de novo - e como poderia eu culpar alguém por isso? É impossível culpar alguém por algo que não se sabe sequer como exprimir, mas todos nós tentamos. Fazemos o possível, mas nada expressa ao certo aquilo que mesmo sendo sentido, sentido não tem. Escapam dos dedos as possibilidades ao passo em que do dicionário fogem as palavras. E, no vazio, me encontro, pois não há nada lá e nada é tudo que eu sou.
Eu sorri pra tristeza e a tristeza sorriu pra mim. Não era tão ruim quanto eu pensava, pois sempre estava lá por mim quando os tempos ruins vinham. Quem me dera a felicidade assim fizesse, mas só vem partilhar da minha alegria, nunca do meu sofrimento. Talvez seja disso que as relações se compõem: junções incoerentes. O conforto com quem só te quer quando está bem e a angústia de se ter por perto quem só te quer bem. O sofrimento é relativo à nitidez dos olhos. Olhos embaçados não veem bem e por isso não há dor a sentir. Olhos aguçados muita angústia veem. Um coração calejado é a chave pra existência plena e feliz, mas pra chegar lá é preciso saber sofrer e sorrir, pra seguir em frente e não desistir. Requer muita força, e eu não sou desses: meu coração não caleja e tampouco existe, porque, ora, nem sei se eu mesmo existo. Dexisto.
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