Confissões de um fracasso.
Queria ser do tipo que vê sentido nas coisas que faz, mas só vejo sentido nas coisas que deixo de fazer. Não me gratifico por aquilo que é natural, só me cobro por não cumprir o que também devia ser. Corro dias pensando num futuro improvável, mas estagno em possibilidades em que podia correr, ocasionando tempos igualmente importantes, tempos estes que acabo por perder.
Queria ser do tipo que escreve para toda essa gente que busca um sentido pro seu viver, mas não consigo fazer grandes proezas, só escrevo sobre aquilo que julgo conhecer. Um pouco de mim e um pouco do outro, mas a maior parte de mim acredita ser uma situação singular. Que sentido teria, então, escrever qualquer coisa, se ninguém mais pudesse se por no lugar?
Queria ser do tipo que atrai multidões, mas na maior parte do tempo o mundo foge de mim. Tento remediar e sorrir um bocado, e abro o rosnado feroz de uma besta gentil. Se alguém pudesse ver o que há por trás dos meus olhos, compreenderia então uma intenção tão sutil, mas meus óculos embaçados impedem a visão e tudo o que enxergam é o espelho de um louco senil.
Queria ser do tipo que fala um bocado, que convence multidões de que o mundo é gentil, de que há algum sentido e de que é preciso esperança, mas esperança por si só é algo que já me fugiu. Tudo o que posso dizer, portanto, é que existe tempo, mas decisões não se tomam a um. É possível mudar e viver de uma forma tão boa, mas isso é para aqueles que puderam se unir. Para todos os outros, aconselho desistir. Dexisto.
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