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Singular sem pressa.

Às vezes a normalidade cansa e a rotina se torna sufocante, feito uma corda já enrolada no pescoço e que a cada dia aumenta um nó. Viver é, de fato, estrangular-se em problemas - não é por acaso que a imagem popular do homem de sucesso envolve uma gravata no pescoço. Se o negócio é um sufoco, estrangular-se com classe é o que há. Às vezes é preciso fugir da rotina, fazer alguma loucura e se sentir no controle de sua própria vida para conseguir se lembrar que a paz é real, que é possível se sentir bem apesar dos apesares. Quando tudo vai por água abaixo, dar um mergulho e curtir a correnteza, esquecer por um momento dos problemas e lidar com uma coisa de cada vez. E, em todo momento, essa coisa deve ser a paz. Às vezes é preciso ser sincero consigo mesmo e ouvir a balbúrdia que a mente faz. Abrir a boca e gritar, ainda que não articule palavras, apenas para expressar aquilo que fará a cabeça se esvaziar e trará o silêncio para o mundo outra vez. Resoluções podem ser tanto simples q...

Irrisório espetáculo.

Na curva do tempo, sobrevive um pesar e, entre tantos, é logo esse que de tão peculiar me faz arrastar atrás de mim a vida que vivi. Completa em suas partes menores, frações de prazer e fragmentos de desejos; incompleta e insensata, bem do jeito que devia ser. Ao longo dos meus braços, cabem asas de um pássaro que içou voo para longe. Num abraço, o deixo escapar, mas arranco as poucas penas que toco e as trago junto ao peito, sentindo apenas as penas. Nada concreto, mas tão significante quanto a liberdade de alguém que se foi e já não mais é. Em minha fala, faltam palavras, porque estas se ausentam de sentido. Nada é tão profundo ou significante a ponto de remeter ao que elas de fato desejam transmitir. É algo que, de tão peculiar, se transmite melhor no silêncio que surge no espaço entre as palavras. Sob meus pés se estende um mundo, mas tão extenso é que me parece intangível. A liberdade me encara e dela não posso ter, pois preenche um tanto bem maior que eu - e é uma questão ...

Não ser ou não-ser? Eis a questão.

Como explicar quando, à beira do penhasco, ao invés de recuar, se passa a flertar com o abismo? Não há diferença entre o topo e a queda, senão a perspectiva que se tem do mundo - mas melhor seria cair antes que o abismo se torne ainda maior. Como explicar que se cansou de sonhar? Sonhos são feitos para o onírico pelo simples fato de que a realidade os destrói amargamente, mas as fantasias fantasiam  serem reais elas próprias. Só que a vida insiste em nos decepcionar a todo instante, o que rompe os sonhos originais e os torna em ideias ruins. Como explicar que se cansou de explicar? Quando as respostas são escassas e tornam-se insuficientes para todas as perguntas que surgem, e ainda mais para sustentar a vida que se leva, tudo parece um pouco mais complicado do que se imaginava ao sugerir uma explicação. E às vezes faltam palavras, faltam respostas e falta vontade de continuar procurando qualquer coisa. Qualquer coisa. Como explicar que a vida segue apesar disso? Viver não...

Antítese do vazio.

O silêncio rumina minha alma feito a paciência que consome o tédio. Lá fora, as pessoas se silenciaram e vestiram máscaras para encobrir seus verdadeiros sentimentos e opiniões, expondo então um fragmento do discurso alheio e geral. Aqui dentro eu me permito ser sincero comigo mesmo, mas não sei o quanto é sinceridade e o quanto é revolta, vontade de participar do mundo e se decepcionar, e então pensar o total oposto apenas por vingança. A decepção deteriora meu ânimo feito chuva invadindo a janela esquecida aberta. Onde antes havia conforto, agora a vida chora uma ode para o tédio, resumindo-se ao nada e ao vazio que o representa. Onde agora há tédio, antes havia motivação e sentimentos e vontade de mudar o mundo, mas o mundo me mudou primeiro e agora eu estou à beira da estrada, esperando uma carona pra me levar de volta pro lugar em que outrora eu estivera, pois viver no vazio é o mesmo que não viver ao todo. O vazio preenche todas as coisas e cores e torna o sono numa constant...

Paralaxe da estética.

As pessoas são como flores do mal, sempre a machucar as pessoas ao seu redor e promover doses e mais doses de maldade mundo afora. A questão é que isso não é de sua natureza, mas sim do mundo em que vivem e lhes ensina tais comportamentos - somos herdeiros de infinitas maldades colhidas, plantadas e então semeadas de volta. Tudo o que vemos é uma cópia de uma cópia de uma cópia, e assim por diante. Não há nada de novo atualmente, apenas repetições de coisas que um dia fizeram, e então uma pessoa viu e refez, e depois outra, dando início a uma série de inocentes maldades. Somos meros espelhos, refletindo o que nos parece coerente, embora essas coisas nem sempre sejam realmente adequadas. As pessoas são como túmulos lacrados, sempre a guardar um segredo obscuro das pessoas ao seu redor, por vergonha de um deslize cometido. A questão é que isso não é intencional, mas obra de impulsos mal controlados e maldades feitas sem intenção. O segredo se dá pela compreensão disso e compreende uma...

Anatomia da dependência.

Toda viagem reserva perigos e, sendo a maior de todas as jornadas, a vida não poderia ser diferente: ela é traiçoeira em seus detalhes e ausências, assim como na necessidade e fé. A princípio, é preciso lembrar que a fé se define por uma crença livre de provas, sustentando-se por conta própria e de forma constante. Assim, logo podemos ver o quanto a vida requer empenhos livres de prova e que comumente não são recompensados devidamente - ausências constantes e necessidades que continuam pendentes. Repetimos as coisas que não funcionam e que, portanto, continuam se fazendo ausentes; necessidades que continuam em pauta na nossa lista imaginária de prioridades - se estas tivessem sido sanadas, afinal, pararíamos de tentar cobrir o vazio que sua ausência proporciona. Assim, repetimos falhas e buscamos medidas constantemente para tentar refrear esse buraco na alma; caso contrário, a alma se deteriora aos poucos e nos infiltramos na loucura para não nos depararmos com a incompletude do nos...

Caricatura do desastre.

Pessoas são rascunhos de uma vida inteira de possibilidades e, não importa o que aconteça, continuam estando condenados a repetir apenas aquilo que lhes foi imposto, proposto e disposto. Enquanto a disponibilidade é uma sentença inicial para o crime de existir, a liberdade é o que resulta de cada revisão dessa vida vivida: Por ter escolhido X durante sua sentença, aumentaremos ela para a disponibilidade de Y nas mesmas ocasiões! Agora vá, seja livre! Ser livre não é tão favorável quanto fazem parecer, pois envolve responsabilidade. O peso que se carrega por cada decisão e erro. Aquele que se prende a alguma coisa, ao menos possuirá um álibi para seus comportamentos inadequados. As correntes são um alívio quando se percebe a cobrança que o mundo faz a quem controla os títeres. E, não importa o que aconteça, vai haver sempre mais cobrança e insatisfação, nunca reconhecimento. A vida não se trata sobre sucesso, mas perdas, lutos, frustrações afins. Talvez interpretem semblantes cansa...

Infinitivo da ausência.

A vida é uma produção constante de nostalgia. Para aquele que vive, não há meio termo: ou você se sente feliz e aproveita sua vida ao máximo, criando momentos para se recordar posteriormente com uma saudade gostosa de se sentir; ou você se sente vazio por dentro e resume sua existência ao tédio, ansiando por tempos que passaram e você sequer percebeu o quanto era bons ou, pior ainda, sente saudade de coisas que sequer aconteceram. De toda forma, a vida se resume à ausência e produção constante, para se ausentar novamente depois. Por isso a saudade de coisas que não aconteceram é a pior coisa possível: você exclui suas possibilidades e se ausenta em seu presente, tornando-se incapaz de viver adequadamente, produzindo os momentos que tanto ansiava. A pior saudade que tem é das coisas que nunca mais vão acontecer, porque essas doem. Em especial aquelas saudades de coisas que nunca mais teremos, mas ainda sentimos necessitar tanto - uma ausência que grita em dor. A vida consiste numa pr...

Campo gravitacional do determinismo.

A maioria das coisas que fazemos não tem sentido explícito. Não importa o quanto tentemos compreender e racionalizar e explicar, em nosso âmago há um significado todo especial ao qual nunca teremos acesso. O valor que realmente damos às coisas, o caráter que demonstramos e os sentimentos que desconhecemos, mas que nos conhecem tão bem. Temos afeição pelo desconhecido, porque tudo o que nos define nos foge à consciência. Cada lei que seguimos e prazer que buscamos. Há algo subliminar na nossa razão, um motivo profundo pelo qual necessitamos lógica quando esta não faz o menor sentido: controle do inevitável. Se o essencial é invisível aos olhos, tudo o que sentimos inevitável é de suma importância em nossas vidas. Cada movimento que pensamos ordenar é, na verdade, uma órbita forçada ao redor de um campo gravitacional que nos prende à existência. Uma existência pré-programada em funções, embora não em rota. É possível seguir uma rota própria, mas nunca fugir de nossa natureza intrínsec...

Uma flor repleta de mal-me-queres.

Sinceramente, eu não queria ser sincero, porque a sinceridade assusta. Ser verdadeiro e se expor é como se despir em campo de batalha - você nunca sabe se poderá se esquivar de um golpe em tempo caso ele venha, mas sabe que virá. Mentir é tão fácil que se torna banal viver imerso em realidades forjadas, histórias minuciosamente construídas para tecer vidas melhores e relações duradouras. Gestos vazios e cordiais são apenas as ferramentas que as mentiras empregam para criar encaixes entre mundos distintos que cada pessoa traz consigo. Não há profundidade, apenas um resquício de presença para que a ligação seja feita, apenas uma impressão de carinho que se esvai tão breve você abandona a sua própria. E tudo vira verdade outra vez. Sinceridade é algo que se conquista aos poucos, não que se tem diretamente. É árduo e é preciso merecer, como o tesouro enterrado no fundo de uma gruta. Se fosse fácil, todos seriam sinceros uns com os outros e cada gesto seria carregado de mais valor. O que...