Não ser ou não-ser? Eis a questão.
Como explicar quando, à beira do penhasco, ao invés de recuar, se passa a flertar com o abismo? Não há diferença entre o topo e a queda, senão a perspectiva que se tem do mundo - mas melhor seria cair antes que o abismo se torne ainda maior.
Como explicar que se cansou de sonhar? Sonhos são feitos para o onírico pelo simples fato de que a realidade os destrói amargamente, mas as fantasias fantasiam serem reais elas próprias. Só que a vida insiste em nos decepcionar a todo instante, o que rompe os sonhos originais e os torna em ideias ruins.
Como explicar que se cansou de explicar? Quando as respostas são escassas e tornam-se insuficientes para todas as perguntas que surgem, e ainda mais para sustentar a vida que se leva, tudo parece um pouco mais complicado do que se imaginava ao sugerir uma explicação. E às vezes faltam palavras, faltam respostas e falta vontade de continuar procurando qualquer coisa.
Qualquer coisa.
Como explicar que a vida segue apesar disso? Viver não consiste em fazer planos ou obter respostas, e muito menos em sonhar ou ser feliz. Viver é o abismo no qual a existência se dá, enquanto todas essas coisas surgem como ferramentas da existência para se fazer sentir real - ou seja, sem isso, a existência não parece concreta de verdade. Uma vida mal vivida é como uma existência que não é, que não pode ser, um sonho mal sonhado e, portanto, um objeto mal idealizado.
Talvez eu tenha sido uma ideia ruim tendo uma série de ideias igualmente ruins. Insistir em existir é ter esperança onde não há e, portanto, alimentar o sofrimento de frustrações por vir - melhor desistir e apenas ser o não-ser, aquilo que não é e nem mesmo poderia ser. Dexisto.
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