Irrisório espetáculo.

Na curva do tempo, sobrevive um pesar e, entre tantos, é logo esse que de tão peculiar me faz arrastar atrás de mim a vida que vivi. Completa em suas partes menores, frações de prazer e fragmentos de desejos; incompleta e insensata, bem do jeito que devia ser.
Ao longo dos meus braços, cabem asas de um pássaro que içou voo para longe. Num abraço, o deixo escapar, mas arranco as poucas penas que toco e as trago junto ao peito, sentindo apenas as penas. Nada concreto, mas tão significante quanto a liberdade de alguém que se foi e já não mais é.
Em minha fala, faltam palavras, porque estas se ausentam de sentido. Nada é tão profundo ou significante a ponto de remeter ao que elas de fato desejam transmitir. É algo que, de tão peculiar, se transmite melhor no silêncio que surge no espaço entre as palavras.
Sob meus pés se estende um mundo, mas tão extenso é que me parece intangível. A liberdade me encara e dela não posso ter, pois preenche um tanto bem maior que eu - e é uma questão de tudo ou nada. Ou tudo posso ou nada tenho, imagino que seja uma questão de simples resposta.
Por trás dos meus olhos se esconde o irrisório, toda essência que plantei e sua colheita escassa de sentido. Não há sentido num viver que não se faz, mas não há sentido em fazer um viver - ou ele é ou nunca será. Não é algo a se construir, mas a continuação de algo que já estava ali desde sempre.
Sempre há tempo, mas nunca sobra tempo para se observar o tempo. Na preguiça se estende o tempo perdido, asfixiando a vontade. Na agitação cotidiana, se perde o tempo para não se perder mais tempo. Na lentidão dos dias, a única constante é a impossibilidade de se fazer jus.
Onde está o sentido das coisas? Não o vejo. Talvez não seja para ser visto com os olhos em si, mas com o coração. Mas no coração só tenho pena, e não tenho tempo para mudar isso, tenho algum lugar para ir. Mas para onde vou se tudo é tão grande e, a única coisa que percebo, é a vida me escapando? Sinto o sabor da liberdade, mas ele é só um vislumbre do que podia ser e nunca foi, tento descrever tudo isso, mas não há palavra que me explique corretamente.
Um silêncio precede as cortinas se fechando. Dexisto.

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