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Destroços dos troços.

Vivemos no limite de tudo, no limite de nós mesmos. Em torno do abismo, lá onde tudo é beira. Seguir em frente é desabar, mas olhar pra trás é se deparar com os destroços dos troços todos. Que troços? Sabe-se-lá o que poderiam estes ser. Carecem tanto de nome quanto de sentido, mas destroçam-se ainda assim. É solitário onde estudo se rompe, mas é arriscado ter companhia quando tudo parece se romper ao seu redor. A vida por um fio não é o suficiente para tecer redes e conexões. Carece tanto de força quanto de capacidade. Não é capaz de ser forte e nem tem força para mudar isso. Parece solitário e por vezes de fato o é; mas não ouse roubar da solidão de outro se não estiver disposto a compartilhar da sua. Somos fios sem nós e longe de se atarem. Somos apenas eus  e mais eus  e outros eus . Falamos também sós como em telefones sem fio, e falamos de nós para nós e apenas conosco, mas na companhia de outro que sempre estará do outro lado, segurando em vão a ponta de um fio que nun...

L'Étrange Saison.

 Bom dia, tristeza, seja bem-vinda de volta. Tempos estranhos requerem saudações inesperadas, como velhas notícias reencontrando seu lugar na modernidade. Pois tudo que é moderno tende a estar em alta, ainda que por um breve instante. Aliás, se não for por um breve instante, não pode ser moderno. Tudo isso tem a ver com a brevidade. Viver às pressas e correr contra o tempo para tentar acompanha-lo um pouco mais. Enquanto isso, nós apenas fluímos com nosso fluxo cronológico, inevitável em sua densidade. Como podemos nos considerar modernos se estamos sendo constantemente ultrapassados? A sociedade moderna é repleta de antiquários tentando esconder-se por trás de novidades por um instante mais. Mas é apenas um instante afinal. Somos rascunhos de lembranças que poderiam ser guardadas num museu caso fossem importantes. Somos fadados ao esquecimento e tédio da mesma forma que o vazio está aí para ser preenchido. E, em nosso esquecimento, deixamos um vazio a ser preenchido por outro brev...

Dus temps seules.

Sinto-me só. Sigo em busca de refúgio contra mim mesmo na multidão, mas, de alguma forma, isso não me traz conforto algum. Justamente pelo contrário, parece intensificar o deslocamento e mal-estar que sinto. De certa forma, parece que ao invés de me fazer inserido, me faço exaurido ali; exausto até os ossos, esgota-se o que há de mim. Busco refúgio, então, na solidão. Não que eu me sinta cheio - muito pelo contrário: é o vazio que me abomina. Agora sinto-me não apenas só, mas também vazio. Não pertencer a nenhum lugar é exaustivo, mas não pertencer a si mesmo é desesperador. E, conforme o tempo passa, você continua a se distanciar de si mesmo (daquele velho eu  que costumava te ser tão familiar e agora passa a ser apenas nostálgico) para se tornar alguém que espera não se sentir vazio, que espera ter um lugar, que espera chegar nalgum lugar e sentir-se, enfim, cheio. Afinal, é preciso, pelo menos, tentar. E quando se é o réu, vítima e juiz é difícil se defender das acusações. Quand...

A traição das ideias.

Isto não é um texto. Qual o momento certo de admitir que a memória te traiu e deixou um vácuo de sentido entre a realidade e a possibilidade? Não que a semântica das coisas tenha deixado de existir, ela só deixou de se aplicar naquele momento. As metáforas se tornam literais e o mundo se torna limítrofe. Qual o momento certo de admitir que a fantasia te traiu e todos os sonhos que você nutria eram, em realidade, pesadelos bem disfarçados de felicidade? Não que seus sonhos não fossem bons - eles só não eram bons pra você. Todas as outras pessoas parecem felizes e, enquanto você se pergunta se elas realmente o estão, você se dá conta de que você não está. Qual o momento certo de admitir que a rotina te traiu e se tornou enfadonha, te fazendo se sentir um estranho em meio a tudo que lhe era familiar? Não que você tenha mudado, você apenas se deu conta de quão dissonante tudo é, como se o seu eu  de hoje pudesse ver melhor o que o eu  de ontem relutava em ver. A paralaxe em ação. ...

Esquizovida

Beira ao precipício seguir em frente, caminhar despreocupadamente e acreditar num pouco de paz. Além disso, é impossível voltar atrás uma vez que se veja o abismo, assim como retomar aquele pouco de paz com o qual se faz ilusão. Abismados, então, nos desesperamos. Assim, o fim do espírito é o início do desespero, a apoteose do desapontamento a o ápice da frustração. Beira ao delírio seguir em frente e acreditar nalgo melhor. Diante da incapacidade, insatisfação, infortúnio e imprecisão cósmica, seria loucura crer que algo diferente disto ocorreria, ter fé e marchar em ré em direção à razão. Assim, ao passo em que se continua a desejar com a impressão da satisfação, mais do mesmo se deseja, iludindo-se com a impressão do progresso. Beira ao suicídio seguir em frente e viver intensamente. Aquele que mais ama a vida segue em direção ao seu fim, desapontado com a incapacidade de contemplar uma vida em dignidade e satisfação. Aquele que mais a odeia, vive como forma de flertar com a morte, ...

Contradição numa casca-de-noz

Em certa altura, todos nós nos sentimos um pouco estranhos, perdidos, nos perguntando o que foi que aconteceu ou onde foi que erramos. O que houve naquele momento que fez com que tudo ocorresse diferente do esperado? Será que realmente tínhamos o controle o tempo todo ou será que essa era só mais uma ilusão nossa para inferir coerência num mundo que, na verdade, não a possui, mas nos possui a seu bel prazer e coerente à nossa incoerência? Em certa altura, todos nós somos desconhecidos a nós mesmos. Por mais que insistamos que as circunstâncias nos levam a fazer uma coisa ou outra - e que, por vezes, essas coisas venham em contradição à nossa moral -, em algum momento temos que admitir que somos frutos dessas mesmas circunstâncias e que quem somos não passa de um amontoado de opções bem ou mal feitas. A ética pessoal existe à altura em que não contradigo aquilo que o mundo me proporcionou até então. Mas sou pura contradição. Em certa altura, todos nós nos sentimos inquilinos de nós mesm...

Desincoerente, dexistente e indestinável

Antes de ser algo, é preciso saber o que é fruto de sua experiência e o que advém de sua própria existência. O joio e o trigo se misturam de tal forma que é impossível diferenciar o que se é e o que se pensa ser a menos que se afaste um pouco de si mesmo e se permita observar por um breve instante o que se é na ausência de si mesmo. A verdade é aquilo que melhor justifica a coerência do mundo ao seu ego até que uma explicação melhor surja, ou até que a incoerência seja tão grande que não se possa mais disfarçar que se perdeu no meio do caminho. É um longo caminho, e as oportunidades para cair e tropeçar surgem a todo instante. Eu sou o que penso ser, ou penso ser aquilo que me conforta? A princípio, é difícil sequer imaginar como pensar essa questão. Se fosse assim tão simples, não seríamos muitas vezes aquilo que nos desconforta - como poderíamos desaprovar nossa própria existência em busca de coerência no mundo quando escolhemos cada passo tomado com busca na manutenção dessa mesma c...

Sentir o nada é a mesma coisa que não sentir nada?

Eu olhei para o nada, e nada me olhou de volta. Se a solidão é caça, hoje é dia do caçador. Seus olhos me dizem o que sua boca não, ao passo em que o que suas palavras contam, seus olhos desmentem. Se me amasse de verdade, me privaria desse amor. Só há verdade na dor, pois dói aquilo que te custa sentir. No prazer, apenas há a ilusão que exponencia o sofrimento por vir. E, se amor é fogo que arde sem doer, o que me oferece é um incêndio - e eu queimo, mas não é bom. Só é bom quando for real - e, quando assim, irá doer e nada de bom irei eu ver. Eu calei minha voz, mas o silêncio falou mais alto do que qualquer coisa que eu pudesse ter dito. Não havia palavras para descrever o que eu sentia, pois nem mesmo um sentimento era. Suspeito que ninguém jamais se sentiu assim ou irá de novo - e como poderia eu culpar alguém por isso? É impossível culpar alguém por algo que não se sabe sequer como exprimir, mas todos nós tentamos. Fazemos o possível, mas nada expressa ao certo aquilo que mesm...

Confissões de um fracasso.

Queria ser do tipo que vê sentido nas coisas que faz, mas só vejo sentido nas coisas que deixo de fazer. Não me gratifico por aquilo que é natural, só me cobro por não cumprir o que também devia ser. Corro dias pensando num futuro improvável, mas estagno em possibilidades em que podia correr, ocasionando tempos igualmente importantes, tempos estes que acabo por perder. Queria ser do tipo que escreve para toda essa gente que busca um sentido pro seu viver, mas não consigo fazer grandes proezas, só escrevo sobre aquilo que julgo conhecer. Um pouco de mim e um pouco do outro, mas a maior parte de mim acredita ser uma situação singular. Que sentido teria, então, escrever qualquer coisa, se ninguém mais pudesse se por no lugar? Queria ser do tipo que atrai multidões, mas na maior parte do tempo o mundo foge de mim. Tento remediar e sorrir um bocado, e abro o rosnado feroz de uma besta gentil. Se alguém pudesse ver o que há por trás dos meus olhos, compreenderia então uma intenção tão s...

Anagramas de saudades e o motor da vida.

Saudades tenho da infância, com gosto de ceias e sorrisos sem graça, gratuitos e fortuitos. Onde não há expectativas demais ou visões do mundo além, só o aqui e agora, planos que, no mais longe, são fazem para depois do jantar. O amanhã é uma surpresa e o ontem foi uma experiência, o passado e o futuro só existem na cabeça como conceitos longínquos e abstratos, que pouco sentido fazem senão orientar a direção que o tempo corre. Saudades tenho de fotos amareladas e programações infantis na televisão, quando a nostalgia te mostra que no presente não há tempo pra matar, só planejamento e imagem própria a construir. Houve dia em que não importava o que você queria ser, bastava ser e como você fazia isso é que era importante. Inversões de valores convertem moedas em quantidades absurdas de dinheiro, assim como a bolsa de valores do tempo humano transformam o valor de um dia adulto em algo completamente diferente de um dia infantil. Não há mais tempo de ser criança, todos os dias são adul...